quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

HOMENAGEM AO SOLDADO PORTUGUÊS 1914 - 2014

FADO DAS TRINCHEIRAS
Homenagem ao Soldado Português no Centenário do Início da Primeira Grande Guerra
1914  -  2014

                                                 (ouvir aqui)
http://www.youtube.com/watch?v=01Q8b5NKDH0

                                 O soldado na trincheira
                                 Não passa duma toupeira
                                 Vive debaixo do chão
                                 Só pode ter a alegria
                                 De espreitar a luz do dia
                                 Pela boca de um canhão

A partida sempre sofrida e a angustia
 por um regresso incerto...
(Colecção particular - IP)



















Nas trincheiras de Moçambique - 1914
(Colecção particular)



















                          













                                             Mas quando chegar a hora
                                 Dele arrancar por aí fora
                                 Ao som da marcha de guerra
                                 Seus olhos, são duas brasas
                                 E as toupeiras ganham asas
                                 As águias lá da serra


Em França - 1918 (Colecção particular)



Em Angola - 1915  (Colecção particular)
                           
                               Rastejamos como sapos
                               Com as fardas em farrapos
                               Pela terra de ninguém
                               Mas cá dentro o pensamento
                               Corre mais alto que o vento
                               Voando p'ra nossa mãe
                               E se eu morrer na batalha
                               Só quero ter por mortalha
                               A bandeira Nacional
                               E na campa de soldado
                               Só quero um nome gravado
                               O nome de Portugal


Em França - 1917 (Colecção particular)



Em França - 1917 (Colecção particular)

                               Soldados da nossa terra
                               São voluntários da guerra
                               Que vêm bater-se por brio
                               Raça de fogo e de glória
                               Que escreveu a nossa história
                               Os mundos que descobriu


Numa trincheira em França - 1918 (Colecção particular)



Passagem do Rio Rovuma em Moçambique - 1916

                               Por isso, a Pátria distante
                               Reza em nós a cada instante
                               Como a luz de uma candeia
                               Que arde de noite e de dia
                               No altar da Virgem Maria
                               Na igreja da nossa aldeia


Em marcha para as Primeiras Linhas - França 1918 (Colecção particular)



Uma pausa na trincheira - França 1918 (Colecção particular)

                               Rastejamos como sapos
                               Com as fardas em farrapos
                               Pela terra de ninguém
                               Mas cá dentro do pensamento
                               Corre mais alto que o vento
                               Voando pela nossa mãe
                               E se eu morrer na batalha
                               Só quero ter por mortalha
                               A bandeira Nacional
                               E na campa de soldado
                               Só quero gravado
                               O nome de de Portugal

(Ouvir instrumental, aqui)
http://www.youtube.com/watch?v=1Jmho09HV0Y

Letra: Félix Bernardes / João Bastos
Música: Maestro António Mello
Repertório: Fernando Farinha




Portão do Cemitério Militar Português em Richebourg - L'Avué, perto de Lille, França
(Colecção particular - foto tirada pelo signatário)

Interior da ala direita do Cemitério  (Colecção particular - foto tirada pelo signatário)


Uma viúva
(Colecção particular)



Passagem de um rio em Moçambique - 1915









Monumento erigido em
França no local do Reduto Português em
Lacouture 

Escultura de Teixeira Lopes

(Colecção particular - Fotos tiradas pelo signatário)

















(Colecção particular)

Coordenação e ilustrações: marr











sábado, 7 de setembro de 2013

CORPO EXPEDICIONÁRIO PORTUGUÊS (C.E.P.) A FRANÇA 1917-18

UM DIA SEM OCORRÊNCIAS

Terra de Ninguém (Colecção particular)


O que é que se vê da 1.ª Linha? Coisas pavorosas durante a noite, quando a lua ou os "very-light" iluminam a Terra de Ninguém. À frente do parapeito, a rede de arame farpado; um verdadeiro inferno inventado pelo diabo para não deixar descansar o soldado. Todas as noites era preciso consertá-lo; todas as noites o inimigo cortava um pedaço.

Na Terra de Ninguém
(Colecção particular)
Uma noite, ao "a postos", seis granadas caiem em diversos pontos, à frente e à rectaguarda, mas muito próximo da 1.ª Linha; aquela hora, era para dar que pensar. Os homens recolhem aos abrigos, apenas as sentinelas e o oficial de serviço ficam nos seus lugares, porque estes homens têm de manter-se nos seus postos, ainda que a trincheira vá pelos ares.

A seguir, começam a chover granadas sobre o abrigo do comandante da companhia na razão de uma por segundo. Pelo ar voavam destroços de madeira, de arame, terra...latas de conserva, estacas, etc., etc.

Neste inferno, para se fazerem ouvir, os oficiais gritavam furiosamente as ordens aos ouvidos dos homens, como se lhes fossem morder as orelhas. O comandante da companhia quer comunicar com o do batalhão: impossível; estão as ligações rebentadas. Manda uma ordenança com um pedaço de papel onde à pressa escreveu:- «violento bombardeamento sobre a 1.ª Linha e trincheiras de comunicação. Tudo recolheu aos abrigos».

Máscara anti-gás modelo P de
1915 (inglês) utilizado pelo CEP
(Colecção particular)
Observa-se o momento em que o inimigo alonga o tiro; nesse momento está toda a gente no parapeito, que o Boche deve atacar. Os subalternos correm para a linha, as granadas continuam chovendo nela; sentiu-se uma primeira baforada de gás, e os subalternos gritam aos homens para que ponham as máscaras. E então nota-se - caso notável - que o bombardeamento não aterroriza os homens na 1.ª Linha, como se poderia supor,e que, pelo contrário, permanecem mais enérgicos, mais cheios de vida, com os nervos tonificados como ao ouvir uma bela orquestra tocando uma música emocionante.

A nossa artilharia, sempre pronta, começara a responder havia já um quarto de hora; mas o estrondo das granadas inimigas em torno da nossa gente era tal, que não deixava perceber que a nossa artilharia fazia já fogo, e que as nossas granadas faziam voar o inimigo para fora das suas trincheiras.

(Colecção particular)
O bombardeamento contrário incidia particularmente num ponto do parapeito, numa frente do pelotão, e o comandante da companhia mandou concentrar os seus homens, à excepção das sentinelas, próximo de um dos flancos da porção bombardeada, todos com máscaras, baioneta armada, prontos a contra-atacar; as metralhadoras apontadas à brecha. Alguns homens caiem; os maqueiros prontamente os transportam para a rectaguarda, para o posto de socorros.

De súbito, parou o bombardeamento, embora persistindo mais para os flancos. A metralhadora do nosso lado direito cessou de funcionar, a sua guarnição caíra toda e o inimigo aparece no parapeito; a esta vista, o pelotão concentrado num dos flancos, rompe fogo; os alemães surpreendidos, recuam; o comandante do pelotão salta para o parapeito e atrás dele os seus soldados que caiem sobre o inimigo que rola para a Terra de Ninguém.
Soldados alemães ao ataque. (Colecção particular)

Os nossos soldados descarregam as espingardas sobre eles: chovem granadas, batem-se à baioneta com os alemães os soldados do 34: mais para a direita, sobre o monte de ruínas do parapeito esburacado pelas granadas combatem à baioneta os soldados do 34, do 15 e do 13... outros militares acodem e o inimigo desaparece...
Obuses alemães (Colecção particular)

O bombardeamento, agora, incidia feroz sobre as nossas baterias; uns poucos de abrigos de peças estavam esborrachados, as guarnições soterradas; noutros, os artilheiros continuavam aos pulos, furiosos, como demónios, carregando e despejando as suas peças. E o fogo aumentava de intensidade; os comandantes de bateria activavam o remuniciamento, não fossem faltar munições quando eram precisas.
Artilheiros portugueses (Colecção particular)

Na frente fizera-se a calma, e os maqueiros levantavam e transportavam os feridos e mortos. Os comandantes de pelotão tomavam nota das perdas e das reparações a fazer. O Brigadeiro veio logo às linhas saber o que se passara.

Quando os telegramas publicados nos jornais diários dizem: 
- «Sossego em toda a frente»,
o bom cidadão que lê o "Diário de Notícias" ao mesmo tempo que sorve o seu café com leite matinal, diz consigo ou para a família:
- «Estes diabos da tropa sempre têm uma sorte!»
(Colecção particular)

O que este bom burguês-amigo ignora, é que o «sossego em toda a frente» dos telegramas significa uma noite com um ou dois incidentes, como o que acabamos de narrar, com pouco relevo; é que esse «sossego» , que põem o cidadão tão desdenhosos para connosco, representa uns mínimos de 8 a 10 mortos e 30 a 40 feridos! 

In: A Grande Batalha do CEP pelo General Gomes da Costa.

Coordenação do texto e imagens: marr

segunda-feira, 1 de abril de 2013

CORPO EXPEDICIONÁRIO PORTUGUÊS (C.E.P.) A FRANÇA 1917-18

O CAPITÃO LUÍS GONZAGA


Tinha chegado a França com fama de valentia. Os rapazes com que ele haviam estudado contavam façanhas e bravuras. A sua bravura nativa era essência fundamental do seu temperamento e pela qual toda a sua curta vida nada mais foi que uma constante busca de aventura.
Capitão Luís Gonzaga
Uma das suas últimas fotos
Quando o batalhão, por alturas de Maio entrou em Ferme du Bois, logo começou a correr a sua fama de aventura e coragem.

O apelo e o mistério da Terra de Ninguém era para ele uma tentação à qual não sabia ou não conseguia resistir. E, a toda a hora da noite, ele era o passeante ousado com a fúria de ver, de saber, de penetrar os segredos dessa faixa de morte. Pela manhã, de regresso, aparecia na borda do parapeito a sua face viva, o monóculo rebrilhando na órbita, o cabelo salpicado de lama. Vinha da aventura: roto, encharcado, quebrado de fome e de esgotamento. Que fora ver? Que elementos trazia? Fora colocar-se em perigo, fora salvar o prestígio e a fama que eram o alimento da sua alma insubmissa.
(...) o mistério da Terra de Ninguém era para ele uma tentação(...)
A fama cresce. Da retaguarda pedem façanhas a troco de galões. Gonzaga é procurado insistentemente. Uma recusa formal é a resposta da sua boca orgulhosa. E, por cada oferta e a seguir a cada recusa, o Gonzaga lança-se espontâneamente e desinteressadamente em acções ofensivas. Os soldados falam dele com espanto. De Armentiers a Bethune todas as bocas portuguesas repetem orgulhosamente o seu nome. Um dia, é ferido gravemente por uma granada de mão que explode dentro do parapeito. E, ferido, entrapado, chagado, abandona o posto de socorros e regressa à primeira linha, paisagem querida dessa alma de acção. Dentro do batalhão a companhia é um cantinho onde os mais variados temperamentos se fundem ao calor do mesmo fogo heróico.


Dos subalternos Henrique Augusto é o beirão valoroso; Alípio Oliveira é o trasmontano leal, que encara a morte com uma pachorra sorridente e tranquila. Mas Gonzaga aspira a ser superior! Nomeado agente de ligação, os mapas de arame, os boletins de informação, os relatórios do estado atmosférico, provocam-lhe gargalhadas cruéis. Como recolhia tarde da Terra de Ninguém, os mapas chegavam tarde à Brigada; e a Brigada tinha em menos conta o seu serviço. E, todavia, não saíam patrulhas que ele não guiasse, que ele não conduzisse através do emaranhado inextricável  de arames farpados, de estacas, drenos e valados a caminho do parapeito inimigo...

Saída para um «raid»
O seu espírito bizarro tinha singularidades inesperadas. Passava do sono mais profundo, de chofre, à actividade mais viva. As vigílias da linha não o abatiam. Saía da frente e vinha escrever, em estilo futurista, cartas às madrinhas de guerra. Só os fortes podiam viver junto dele sem ataque. Ao que ocultava cuidadosamente quaisquer sentimentos afectivos que significassem prisão ou fraqueza, repelia--os violentamente nos outros: "A vida deve manter-se livre para poder ser sacrificada livremente num bom momento!"  Tinha exclamações de bravura selvagem, explosões de entusiasmo, vibrantes como gritos de guerra.

Trincheira aliada


















Quando, um dia, os grandes homens da retaguarda descobriram que a Escola de Patrulhas devia ter como professor homens que "as tivessem feito", o Gonzaga foi nomeado professor. Nessa nova situação visitava com frequência os «rapazes», mais bem posto, o monóculo com cordão de ouro pendendo da orelha, a bota encordoada até ao joelho, óptimas luvas, a cabeça muito erguida, irritante, quase insolente. Vinha comunicar que requerera pela décima vez par a Aviação.

Entretanto, a companhia foi nomeada para fazer um "raid". Vieram aviadores para fotografarem a linha fronteira. Dois fortes abrigos do inimigo apareciam tentando as atenções. A artilharia combinou a acção com os infantes... O Gonzaga apareceu perfumado e risonho. Vinha reclamar um lugar na companhia!


Às 4 horas da madrugada da manhã do dia 9 de Março, a artilharia portuguesa rompia em bombardeamento furioso sobre a primeira linha alemã. Para a esquerda da estrada de La Bassée, as Seven-Sisters e a Sandy-Forench ardiam em explosões violáceas. E na frente de Ferme du Bois, a companhia do "raid" que viera de Rest-House, começava a saltar o parapeito entre os postos de Mole e o Copse estabelecendo-se para lá dos nossos arames. 




Os três pelotões iam actuar em separado: Corvo no do centro, Henrique Augusto no da direita, Alípio e Gonzaga no da esquerda. Apesar do infernal bombardeamento que se direccionava para o flanco direito os alemães fronteiros presentem  a saída da nossa infantaria. As suas metralhadoras disparam sem parar. Às 5 horas menos 5 minutos - um minuto a mais ou a menos pode ser o aniquilamento - a artilharia muda de objectivo «fecha a caixa» sobre a Stephane Walk e Mitzi French, isolando assim os inimigos de qualquer auxílio lançado da retaguarda.

Grupo de praças que tomaram parte no «raid»
Primeiro plano, à esquerda o 1.º Cabo Garrido, ordenança do tenente Gonzaga.
Todos estes militares foram citados e condecorados pelos ingleses
Vindas de longe, passam as granadas pesadas de fogo de contra-bateria. Às 5 horas em ponto o pelotão do centro inicia o avanço. Os outros acompanham o seu movimento. As «concertinas» de ao pé do parapeito são cortadas rapidamente e a companhia escala o parapeito alemão.


Soldado alemão numa trincheira. A macabra herança da Guerra















Os homens avançados do pelotão da esquerda encontram logo pela frente uma metralhadora ligeira que os alveja. O alferes Alípio avança decidido. Logo em seu auxílio surge o Gonzaga, que se arroja para a metralhadora a que um soldado deita a mão. O «boche», vendo-se dela desapossado, atira-se à baioneta contra Gonzaga que é ferido no rosto. Num momento, este arrebata a espingarda de um dos seus homens e o duelo começa, fulminante e decisivo.


Trincheira alemã














O alemão cai com uma baionetada no peito. Mas a guarnição da metralhadora tenta vingá-lo. E então o Gonzaga faz uso da sua pistola. Outro alemão tomba por terra. E segue com o Alípio para a limpeza da trincheira. Uma das granadas de mão, ao explodir, deixa gravemente ferido os dois oficiais...




Nessa manhã de regresso, aparecia na borda do parapeito um grupo de três homens, dois amparando o terceiro que, empalecido, esgotado, trazia o casaco numa pasta de sangue. Era o tenente Gonzaga que acabava de conquistar o direito de mais tarde impor a sua entrada na Aviação.

Em 27 de Outubro de 1921, aterram em Tancos, dois aviões "Caudron G III", pilotados pelos capitães Ribeiro da Fonseca e Luís Gonzaga, inaugurando-se nessa data a Esquadrilha Mista de Treino e Depósito.
Caudron G III
Esquadrilha Mista de Treino e Depósito - Tancos 1921
O capitão Luís Gonzaga, agraciado com o colar da Torre e Espada, Cruz de Guerra em França e que na altura era o capitão mais jovem do Exército, faleceu no dia seguinte, durante as cerimónias oficiosas da criação daquela Unidade.


Caudron G III

E, aquele que, tendo vivido a vida da lama e do sangue, precipitou-se na tentação da Morte...




NOTA
O oficial piloto-aviador Luís de Sousa Gonzaga nasceu em Coimbra em 1896. Frequentou a Escola do Exército e era oficial da Arma de Infantaria.

Em França e pela sua conduta heróica foi condecorado com a Cruz de Guerra de 1.ª Classe e promovido por distinção ao posto imediato.

Após a guerra frequentou uma escola francesa de aviação. Era então o Capitão mais novo do Exército Português, quando sobre Tancos, pilotando um avião, este se precipitou no solo, ficando ambas as pernas e um braço fracturados e gravemente ferido no ventre. A caminho de Lisboa, para dar entrada num hospital e ser operado, faleceu.

Luís de Sousa Gonzaga era filho do Major Farmacêutico Justiniano de Sousa Gonzaga. Além da Cruz de Guerra de 1.ª Classe, como foi referido, possuía a Military Cross inglesa, o colar de Oficial da Torre e Espada e a comenda de Avis.

Coorden. do texto e ilustrações:marr

Observação: coordenação de textos de diversos recortes de imprensa (col.particular) da época sem identificação