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segunda-feira, 19 de maio de 2014

NO 1.º CENTENÁRIO DA GRANDE GUERRA (1914-1918)

UMA PÁGINA ESQUECIDA 
DA 
GUERRA EM MOÇAMBIQUE


Como um furacão assolador, as vitoriosas tropas de von Lettow invadiram e talaram, na Primavera de 1918, todo o Norte de Moçambique, numa audaciosa investida sobre Quelimane.

Os nossos aliados sul-africanos, a pretexto de nos auxiliar, colaboravam na invasão, com a mais insolente arrogância, por onde quer que passassem, era o seu primeiro cuidado captarem a confiança indígena, para depois o indispor contra nós, minar pela base todo o nossos prestígio e soberania aos olhos crédulos das populações autóctones. Nessas “contradanças” de marchas e retiradas, duas companhias sul-africanas chegaram em fins de Junho a Nametil e acamparam perto. O Tenente Humberto de Ataíde, como comandante do posto e cumprindo directrizes recebidas, apresentou-se ao comandante da coluna e ficou às suas ordens.

O Tenente Humberto de Ataíde (à nossa esquerda) aquando em Angola com o
Alferes Aragão, heróico comandante dos Dragões em Naulila
(colecção particular)



Chegara-lhe, então, a sua hora da fatalidade! Colhido pelas engrenagens dessa tenebrosa máquina de cobiça e de traição política sul-africana, o pobre e ingénuo herói estava de antemão condenado a não mais se desenvencilhar dela, senão bem triturado, com o coração e a alma sangrando agonias.

As hostilidades entre o major sul-africano e o oficial português romperam daí a dias…Começou por uma nota em africânder, denunciando como suspeitos de entendimentos com o inimigo, todos ou quase todos os sipaios da guarnição do posto. Calando a sua revolta pelo grosseiro embuste, não tendo maneira de contrabater a infâmia, o Ataíde cedeu. Dadas as circunstâncias, as ordens recebidas, a natureza da suspeição, proceder de outro modo seria provocar desde logo o conflito de jurisdições que se lhe afigurava grave.

Consentiu, pois, em que fossem desarmados os seus soldados indígenas e ficou apenas com meia dúzia de sipaios, mal armados e um Sargento europeu.

Entretanto, havia informações de que os alemães avançavam por este Distrito, devendo forçosamente passar pelo posto de Nametil. Os sul-africanos comunicaram ao Tenente Ataíde que tomasse as suas precauções para a contingência duma vitória alemã no inevitável combate que se devia travar. Desnecessária advertência, pois que essa torpe milícia sul-africana até então para nada mais servia senão para ser periodicamente zupada e escarnecida pelos aguerridos askaris de von Lettow-Vorbeck! O Tenente Ataíde tomou pois as suas precauções que tão-somente consistiam em evitar que os armazéns do posto, abarrotados de víveres, viessem a cair nas mãos dos alemães vitoriosos.

Sipaios (colecção particular)


Dois dias depois, um intenso e longo tiroteio para os lados do bivaque sul-africano põe-no de sobreaviso. Devia ser o anunciado combate, Ataíde passou a noite ao relento, com a sua gente, e disposto a todas as eventualidades.

Acabado o tiroteio tratou logo de se informar, mas os sul-africanos tinham debandado, levantando o seu bivaque, sem deixar rasto, nem notícia. Dos alemães também não havia notícias. Para onde teriam ido? Ter-se-iam internado no mato, como era a sua táctica, para caírem de surpresa, pela madrugada, sobre o posto alemão? Nada se sabia…

Ignorante de tudo, desajudado de todos, sem soldados para defender o posto, nem elementos para apreciar a situação, então, a fim de evitar um mal maior, cumpriu as ordens anteriormente recebidas – por fogo aos armazéns!

Seguidamente, com a sua magra escolta, marchou ao acaso até encontrar esses tredos aliados. E o seu pasmo não conheceu limites, ao vir topá-los, muito tranquilos, bivacados no posto de Mùatúa, a algumas léguas à rectaguarda de Nametil.
- «Que não! Não tinha havido nada!», foi a insólita explicação que obteve. «O tiroteio que se ouvira, fora simples ensaio de metralhadoras. E que ele, Tenente Ataíde, não devia ter mandado incendiar os depósitos…».

Tão alarvemente posto em cheque, por essa reles tropa africânder, a sua honra de militar e de português, não lhe sofreu mais o ânimo ouvir-lhes as insolências. Só lhe restava uma solução – um inquérito, um concelho-de-guerra, a ilibação total! Nesse sentido remeteu logo um extenso relatório ao comandante militar português da região, o então Major José Cabral, seu devotado amigo e que mais tarde foi Governador-geral de Moçambique.

Não obteve resposta!

Tropa de África (colecção particular)


Debalde mandou segunda, terceira nota e nada! Por fim num telegrama angustioso, pedia urgentemente uma palavra, uma sanção, fosse o que fosse….e a resposta nunca chegou!

Convencido, enfim, de que cometera um erro crasso, tão facilmente confundível com a cobardia, que nem desse amigo certo merecia uma palavra boa, um gesto de defesa, um apelo, tornou-se juiz da própria causa. E foi inexorável consigo mesmo, o ingénuo, o romântico, o impoluto herói!

A miserável cabala dessa tropa do sul de África tinha sortido os seus efeitos. As ordens recebidas lá de baixo, da União, foram cumpridas à risca. Porque veio a saber-se depois, que nenhuma das notas, dos telegramas, dos angustiosos apelos do Tenente Humberto de Ataíde ao seu comandante e amigo José Cabral, tinham chegado ao seu destino. Os miseráveis, por cálculo ou por desdém, tinham-nos cassado todos, interceptando todos, retido todos entre as suas papeladas.

Foi apenas isto, esta pequenina torpeza, que ele ignorou sempre, de que ele nem suspeitou nunca, o que levou a condenar-se e a justiçar-se por suas mãos.

Só quem nunca se viu ainda em África, sozinho consigo mesmo, nesse lôbrego e hostil silêncio do mato africano poderá acusar esse bravo rapaz de fraqueza de ânimo nesse minuto supremo. Demais ele andava adoentado, convalescente ainda de uma crise de febres. E não há nada mais depressivo que um longo estágio de vida sedentária em África.

Num relatório do Sargento que até ao fim lealíssimo, o acompanhou sempre, mas com quem ele, decerto, por disciplina e orgulho nunca entraria em confidências, disse:
- «No dia 4 de Agosto, desesperado de obter qualquer resposta do Sr. Major Cabral, o Sr. Tenente Ataíde fechou-se no seu quarto a escrever cartas e a rasgar papéis. Às três horas da tarde, tendo perguntado ainda se tinha vindo algum correio para ele, como nada houvesse de facto, ele tornou a fechar-se no quarto e pouco depois desfechou a sua pistola no coração”. As duas cartas que deixou, eram uma para a sua mãe e a outra para o Major Cabral

Perante o exemplo dessa vida e a tremenda lição dessa morte, não será lícito afirmar-se que o precoce fim do Tenente Humberto de Ataíde foi alguma coisa mais que o simples óbito dum oficial em terras de África? Não teria morrido com ele o velho brio português? E não nos assiste ainda o direito de fazer outra pergunta?
- O que haveria a esperar deste honrado e heróico moço? De que prodígios não seria ele capaz, para maior glória do seu tempo e da sua Pátria?
                                                         Carlos Selvagem
                                                     4 de Agosto de 1928



Uma sentinela (colecção particular)



Nota:
Sem comentários, porque os não precisa, transcrevo uma carta, a última. Esta devia andar decorada por todos aqueles que em Portugal vestindo uma Farda do Exército, têm ainda da Honra Militar uma noção ambígua e difusa

« Mùatúa, 4 de Agosto de 1918

Meu Exmo. Amigo

Esta carta é-lhe devida por duas razões: porque V. Ex.ª faz favor 

de me dispensar a sua amizade e porque lhe devo pedir perdão de 

não ter sabido corresponder até ao fim à confiança que em mim 

depositou.


Pratiquei em erro. Erro tanto mais grave quanto ele pode ter

consequências gravíssimas sob o aspecto da nossa soberania aqui 

–mais aqui declaro a V. Ex.ª – no momento em que o pratiquei 

estava absolutamente convencido de que tal devia fazer. Sou uma 

vítima dos acontecimentos e não um cobarde vulgar. Nunca menti 

na minha vida em coisas que a minha dignidade pessoal estivesse

 envolvida. Tudo quanto fiz, fi-lo de acordo com a minha

 consciência e não precisava, pois, de para me justificar, recorrer 

a  embustes e a falsidades. Nesta ocasião suprema, muito menos

 vou faltar à verdade, que todo o homem de honra deve colocar 

acima de tudo. Declaro a V. Exa. Que na ocasião em que fiz o 

desgraçado acto, que hoje me leva ao aniquilamento, eu, e julgo

 que comigo, quantos me acompanhavam, estávamos

 absolutamente convencidos de que se praticava a única solução

 que as circunstâncias reclamavam. Fui infeliz, mas não fui 

cobarde. Durante a minha vida de oficial, várias vezes afrontei a 

morte, em casos bem mais terríveis do que em Nametil e nunca

 dela tive medo. Hoje mesmo que findo esta, vou meter na cabeça 

o ponto final da minha vida. Julgo que dou uma prova mais de

que se saí de Nametil o não fiz por receio de morrer. Tendo

obrigação de morrer no meu posto, eu não me julguei com o

direito de sacrificar impiedosamente e ingloriamente os que me

 acompanhavam e daí a razão do meu acto.

Um inquérito bem ordenado, feito com amor e zelo mostrará, que

 sou uma vítima da confusão desgraçada em que os ingleses nos

 colocaram.

Se em minha consciência, fiz o que devia fazer, nem por isso deixo

 de compreender que me enganei e pratiquei uma grave falta.

 Faltas desta natureza – só uma coisa as limpa e redime. O sangue 

– E por isso me mato.

Resta-me pedir, que aos que comigo me acompanhavam nada seja

 feito. Assumo a completa e inteira responsabilidade de tudo.

 Para vítimas basto eu!

Adeus, meu caro amigo, abracem em meu nome, quantos amigos

 temos – o Bessa, o João de Meneses, o Sarmento Pimentel, o 

MacBride, o Cunha Leal e tantos outros cujos nomes me ocorrem 

ao coração, a este coração a que eu desejava estreitar e que 

dentro em pouco estará frio e inerte. Mais uma vez perdão e o 

último abraço do seu companheiro de ideais.
                                                                                      
                                                                    Humberto Ataíde



Coordenação de Textos e imagens: marr

sábado, 7 de setembro de 2013

CORPO EXPEDICIONÁRIO PORTUGUÊS (C.E.P.) A FRANÇA 1917-18

UM DIA SEM OCORRÊNCIAS

Terra de Ninguém (Colecção particular)


O que é que se vê da 1.ª Linha? Coisas pavorosas durante a noite, quando a lua ou os "very-light" iluminam a Terra de Ninguém. À frente do parapeito, a rede de arame farpado; um verdadeiro inferno inventado pelo diabo para não deixar descansar o soldado. Todas as noites era preciso consertá-lo; todas as noites o inimigo cortava um pedaço.

Na Terra de Ninguém
(Colecção particular)
Uma noite, ao "a postos", seis granadas caiem em diversos pontos, à frente e à rectaguarda, mas muito próximo da 1.ª Linha; aquela hora, era para dar que pensar. Os homens recolhem aos abrigos, apenas as sentinelas e o oficial de serviço ficam nos seus lugares, porque estes homens têm de manter-se nos seus postos, ainda que a trincheira vá pelos ares.

A seguir, começam a chover granadas sobre o abrigo do comandante da companhia na razão de uma por segundo. Pelo ar voavam destroços de madeira, de arame, terra...latas de conserva, estacas, etc., etc.

Neste inferno, para se fazerem ouvir, os oficiais gritavam furiosamente as ordens aos ouvidos dos homens, como se lhes fossem morder as orelhas. O comandante da companhia quer comunicar com o do batalhão: impossível; estão as ligações rebentadas. Manda uma ordenança com um pedaço de papel onde à pressa escreveu:- «violento bombardeamento sobre a 1.ª Linha e trincheiras de comunicação. Tudo recolheu aos abrigos».

Máscara anti-gás modelo P de
1915 (inglês) utilizado pelo CEP
(Colecção particular)
Observa-se o momento em que o inimigo alonga o tiro; nesse momento está toda a gente no parapeito, que o Boche deve atacar. Os subalternos correm para a linha, as granadas continuam chovendo nela; sentiu-se uma primeira baforada de gás, e os subalternos gritam aos homens para que ponham as máscaras. E então nota-se - caso notável - que o bombardeamento não aterroriza os homens na 1.ª Linha, como se poderia supor,e que, pelo contrário, permanecem mais enérgicos, mais cheios de vida, com os nervos tonificados como ao ouvir uma bela orquestra tocando uma música emocionante.

A nossa artilharia, sempre pronta, começara a responder havia já um quarto de hora; mas o estrondo das granadas inimigas em torno da nossa gente era tal, que não deixava perceber que a nossa artilharia fazia já fogo, e que as nossas granadas faziam voar o inimigo para fora das suas trincheiras.

(Colecção particular)
O bombardeamento contrário incidia particularmente num ponto do parapeito, numa frente do pelotão, e o comandante da companhia mandou concentrar os seus homens, à excepção das sentinelas, próximo de um dos flancos da porção bombardeada, todos com máscaras, baioneta armada, prontos a contra-atacar; as metralhadoras apontadas à brecha. Alguns homens caiem; os maqueiros prontamente os transportam para a rectaguarda, para o posto de socorros.

De súbito, parou o bombardeamento, embora persistindo mais para os flancos. A metralhadora do nosso lado direito cessou de funcionar, a sua guarnição caíra toda e o inimigo aparece no parapeito; a esta vista, o pelotão concentrado num dos flancos, rompe fogo; os alemães surpreendidos, recuam; o comandante do pelotão salta para o parapeito e atrás dele os seus soldados que caiem sobre o inimigo que rola para a Terra de Ninguém.
Soldados alemães ao ataque. (Colecção particular)

Os nossos soldados descarregam as espingardas sobre eles: chovem granadas, batem-se à baioneta com os alemães os soldados do 34: mais para a direita, sobre o monte de ruínas do parapeito esburacado pelas granadas combatem à baioneta os soldados do 34, do 15 e do 13... outros militares acodem e o inimigo desaparece...
Obuses alemães (Colecção particular)

O bombardeamento, agora, incidia feroz sobre as nossas baterias; uns poucos de abrigos de peças estavam esborrachados, as guarnições soterradas; noutros, os artilheiros continuavam aos pulos, furiosos, como demónios, carregando e despejando as suas peças. E o fogo aumentava de intensidade; os comandantes de bateria activavam o remuniciamento, não fossem faltar munições quando eram precisas.
Artilheiros portugueses (Colecção particular)

Na frente fizera-se a calma, e os maqueiros levantavam e transportavam os feridos e mortos. Os comandantes de pelotão tomavam nota das perdas e das reparações a fazer. O Brigadeiro veio logo às linhas saber o que se passara.

Quando os telegramas publicados nos jornais diários dizem: 
- «Sossego em toda a frente»,
o bom cidadão que lê o "Diário de Notícias" ao mesmo tempo que sorve o seu café com leite matinal, diz consigo ou para a família:
- «Estes diabos da tropa sempre têm uma sorte!»
(Colecção particular)

O que este bom burguês-amigo ignora, é que o «sossego em toda a frente» dos telegramas significa uma noite com um ou dois incidentes, como o que acabamos de narrar, com pouco relevo; é que esse «sossego» , que põem o cidadão tão desdenhosos para connosco, representa uns mínimos de 8 a 10 mortos e 30 a 40 feridos! 

In: A Grande Batalha do CEP pelo General Gomes da Costa.

Coordenação do texto e imagens: marr

segunda-feira, 1 de abril de 2013

CORPO EXPEDICIONÁRIO PORTUGUÊS (C.E.P.) A FRANÇA 1917-18

O CAPITÃO LUÍS GONZAGA


Tinha chegado a França com fama de valentia. Os rapazes com que ele haviam estudado contavam façanhas e bravuras. A sua bravura nativa era essência fundamental do seu temperamento e pela qual toda a sua curta vida nada mais foi que uma constante busca de aventura.
Capitão Luís Gonzaga
Uma das suas últimas fotos
Quando o batalhão, por alturas de Maio entrou em Ferme du Bois, logo começou a correr a sua fama de aventura e coragem.

O apelo e o mistério da Terra de Ninguém era para ele uma tentação à qual não sabia ou não conseguia resistir. E, a toda a hora da noite, ele era o passeante ousado com a fúria de ver, de saber, de penetrar os segredos dessa faixa de morte. Pela manhã, de regresso, aparecia na borda do parapeito a sua face viva, o monóculo rebrilhando na órbita, o cabelo salpicado de lama. Vinha da aventura: roto, encharcado, quebrado de fome e de esgotamento. Que fora ver? Que elementos trazia? Fora colocar-se em perigo, fora salvar o prestígio e a fama que eram o alimento da sua alma insubmissa.
(...) o mistério da Terra de Ninguém era para ele uma tentação(...)
A fama cresce. Da retaguarda pedem façanhas a troco de galões. Gonzaga é procurado insistentemente. Uma recusa formal é a resposta da sua boca orgulhosa. E, por cada oferta e a seguir a cada recusa, o Gonzaga lança-se espontâneamente e desinteressadamente em acções ofensivas. Os soldados falam dele com espanto. De Armentiers a Bethune todas as bocas portuguesas repetem orgulhosamente o seu nome. Um dia, é ferido gravemente por uma granada de mão que explode dentro do parapeito. E, ferido, entrapado, chagado, abandona o posto de socorros e regressa à primeira linha, paisagem querida dessa alma de acção. Dentro do batalhão a companhia é um cantinho onde os mais variados temperamentos se fundem ao calor do mesmo fogo heróico.


Dos subalternos Henrique Augusto é o beirão valoroso; Alípio Oliveira é o trasmontano leal, que encara a morte com uma pachorra sorridente e tranquila. Mas Gonzaga aspira a ser superior! Nomeado agente de ligação, os mapas de arame, os boletins de informação, os relatórios do estado atmosférico, provocam-lhe gargalhadas cruéis. Como recolhia tarde da Terra de Ninguém, os mapas chegavam tarde à Brigada; e a Brigada tinha em menos conta o seu serviço. E, todavia, não saíam patrulhas que ele não guiasse, que ele não conduzisse através do emaranhado inextricável  de arames farpados, de estacas, drenos e valados a caminho do parapeito inimigo...

Saída para um «raid»
O seu espírito bizarro tinha singularidades inesperadas. Passava do sono mais profundo, de chofre, à actividade mais viva. As vigílias da linha não o abatiam. Saía da frente e vinha escrever, em estilo futurista, cartas às madrinhas de guerra. Só os fortes podiam viver junto dele sem ataque. Ao que ocultava cuidadosamente quaisquer sentimentos afectivos que significassem prisão ou fraqueza, repelia--os violentamente nos outros: "A vida deve manter-se livre para poder ser sacrificada livremente num bom momento!"  Tinha exclamações de bravura selvagem, explosões de entusiasmo, vibrantes como gritos de guerra.

Trincheira aliada


















Quando, um dia, os grandes homens da retaguarda descobriram que a Escola de Patrulhas devia ter como professor homens que "as tivessem feito", o Gonzaga foi nomeado professor. Nessa nova situação visitava com frequência os «rapazes», mais bem posto, o monóculo com cordão de ouro pendendo da orelha, a bota encordoada até ao joelho, óptimas luvas, a cabeça muito erguida, irritante, quase insolente. Vinha comunicar que requerera pela décima vez par a Aviação.

Entretanto, a companhia foi nomeada para fazer um "raid". Vieram aviadores para fotografarem a linha fronteira. Dois fortes abrigos do inimigo apareciam tentando as atenções. A artilharia combinou a acção com os infantes... O Gonzaga apareceu perfumado e risonho. Vinha reclamar um lugar na companhia!


Às 4 horas da madrugada da manhã do dia 9 de Março, a artilharia portuguesa rompia em bombardeamento furioso sobre a primeira linha alemã. Para a esquerda da estrada de La Bassée, as Seven-Sisters e a Sandy-Forench ardiam em explosões violáceas. E na frente de Ferme du Bois, a companhia do "raid" que viera de Rest-House, começava a saltar o parapeito entre os postos de Mole e o Copse estabelecendo-se para lá dos nossos arames. 




Os três pelotões iam actuar em separado: Corvo no do centro, Henrique Augusto no da direita, Alípio e Gonzaga no da esquerda. Apesar do infernal bombardeamento que se direccionava para o flanco direito os alemães fronteiros presentem  a saída da nossa infantaria. As suas metralhadoras disparam sem parar. Às 5 horas menos 5 minutos - um minuto a mais ou a menos pode ser o aniquilamento - a artilharia muda de objectivo «fecha a caixa» sobre a Stephane Walk e Mitzi French, isolando assim os inimigos de qualquer auxílio lançado da retaguarda.

Grupo de praças que tomaram parte no «raid»
Primeiro plano, à esquerda o 1.º Cabo Garrido, ordenança do tenente Gonzaga.
Todos estes militares foram citados e condecorados pelos ingleses
Vindas de longe, passam as granadas pesadas de fogo de contra-bateria. Às 5 horas em ponto o pelotão do centro inicia o avanço. Os outros acompanham o seu movimento. As «concertinas» de ao pé do parapeito são cortadas rapidamente e a companhia escala o parapeito alemão.


Soldado alemão numa trincheira. A macabra herança da Guerra















Os homens avançados do pelotão da esquerda encontram logo pela frente uma metralhadora ligeira que os alveja. O alferes Alípio avança decidido. Logo em seu auxílio surge o Gonzaga, que se arroja para a metralhadora a que um soldado deita a mão. O «boche», vendo-se dela desapossado, atira-se à baioneta contra Gonzaga que é ferido no rosto. Num momento, este arrebata a espingarda de um dos seus homens e o duelo começa, fulminante e decisivo.


Trincheira alemã














O alemão cai com uma baionetada no peito. Mas a guarnição da metralhadora tenta vingá-lo. E então o Gonzaga faz uso da sua pistola. Outro alemão tomba por terra. E segue com o Alípio para a limpeza da trincheira. Uma das granadas de mão, ao explodir, deixa gravemente ferido os dois oficiais...




Nessa manhã de regresso, aparecia na borda do parapeito um grupo de três homens, dois amparando o terceiro que, empalecido, esgotado, trazia o casaco numa pasta de sangue. Era o tenente Gonzaga que acabava de conquistar o direito de mais tarde impor a sua entrada na Aviação.

Em 27 de Outubro de 1921, aterram em Tancos, dois aviões "Caudron G III", pilotados pelos capitães Ribeiro da Fonseca e Luís Gonzaga, inaugurando-se nessa data a Esquadrilha Mista de Treino e Depósito.
Caudron G III
Esquadrilha Mista de Treino e Depósito - Tancos 1921
O capitão Luís Gonzaga, agraciado com o colar da Torre e Espada, Cruz de Guerra em França e que na altura era o capitão mais jovem do Exército, faleceu no dia seguinte, durante as cerimónias oficiosas da criação daquela Unidade.


Caudron G III

E, aquele que, tendo vivido a vida da lama e do sangue, precipitou-se na tentação da Morte...




NOTA
O oficial piloto-aviador Luís de Sousa Gonzaga nasceu em Coimbra em 1896. Frequentou a Escola do Exército e era oficial da Arma de Infantaria.

Em França e pela sua conduta heróica foi condecorado com a Cruz de Guerra de 1.ª Classe e promovido por distinção ao posto imediato.

Após a guerra frequentou uma escola francesa de aviação. Era então o Capitão mais novo do Exército Português, quando sobre Tancos, pilotando um avião, este se precipitou no solo, ficando ambas as pernas e um braço fracturados e gravemente ferido no ventre. A caminho de Lisboa, para dar entrada num hospital e ser operado, faleceu.

Luís de Sousa Gonzaga era filho do Major Farmacêutico Justiniano de Sousa Gonzaga. Além da Cruz de Guerra de 1.ª Classe, como foi referido, possuía a Military Cross inglesa, o colar de Oficial da Torre e Espada e a comenda de Avis.

Coorden. do texto e ilustrações:marr

Observação: coordenação de textos de diversos recortes de imprensa (col.particular) da época sem identificação

sábado, 9 de julho de 2011

ARTILHARIA DE MONTANHA

 A ARTILHARIA DE MONTANHA EXPEDICIONÁRIA A MOÇAMBIQUE
 EM 1916 (a)

Os acontecimentos aqui narrados passaram-se durante o período de Abril de 1916 ao mesmo mês do ano seguinte. Pelo leitura do que se irá seguir poderemos, pelo menos, confirmar que a Artilharia Expedicionária soube sempre, embora com parcos recursos e muitos sacrifícios, cumprir o seu dever.

Antes de entrarmos na parte descritiva da acção destes Expedicionários, iremos analisar o ponto da situação, primeiramente no que diz respeito ao pessoal:

a) Das unidades de artilharia desde o oficial ao soldado e principalmente os do 2.º Grupo entraram em campanha com uma instrução reduzidíssima, e mesmo o 1.º Grupo a instrução que foi por ele recebida em Vendas Novas, antes do seu embarque, foi muito pouca, utilizando apenas esse estágio com alguma vantagem na construção de tábuas de tiro de peça;

b)  Dos oficiais de artilharia de montanha, nomeadamente para esta expedição, só dois tinham já prestado serviço nesta especialidade de artilharia; dos restantes era muito mal conhecida; 

c) Que, depois para o mesmo fim nomeadas, as praças deviam ser sujeitas a uma inspecção médica e não serem incluídas, naquele número, praças que ainda no passado mês de Dezembro haviam regressado de expedições ao Ultramar.

No respeitante ao gado:
Como fora adquirido pela remonta, pouco tempo antes do embarque das unidades, é mais que evidente que não devia ser durante a campanha pela primeira vez trabalhado, mas foi...

Sobre o material observou-se o seguinte:

a) As unidades de artilharia não deviam ter seguido para África com algumas faltas importantes como: carro de munições, sitometros, etc. Os primeiros ainda chegaram a ser enviados, mas bastante mais tarde.

b) A dotação de munições de artilharia das unidades não devia ser, como as circunstâncias a isso obrigaram, assim tão exígua (só 15 granadas explosivas por boca de fogo) e tanto mais que havia já conhecimento de que estava reduzida a 50 granadas a dotação da bateria que se encontrava em Moçambique desde 1915. A dotação de granadas com balas das unidades era de 400 por boca de fogo.

Apesar deste estado de coisas, foi assim que tudo quanto constituía esta expedição teve ordem para embarcar para Moçambique com destino a Palma.

Colecção particular
Palma, como se sabe, é o porto mais a norte de Moçambique, embora representado em qualquer carta geográfica pelo sinal convencional designativo de "cidade ou vila", esta era constituída apenas por duas ou três habitações rudimentares para europeus e algumas de indígenas. Além disso era um porto de mar desprovido de cais e, nestas condições, faça-se pois ideia do enorme intervalo entre a partida de uma assim tão avultada expedição e o seu completo e seguro desembarque no ponto do destino. Resumindo: os processos ainda ali eram extraordinariamente primitivos e daí as enormes dificuldades que a cada passo lá surgiam para as forças da expedição, e a propósito fosse do que fosse; quanto a preparativos de recepção da expedição, pouco mais havia do que mato capinado, numa certa extensão de Palma, de modo a bivacar-se rapidamente.

Logo à chegada foi o comando da artilharia da expedição encarregado da construção de paióis que ficaram concluídos passado sensivelmente um mês.

Palma já era considerada uma base marítima de operações. Na frente da zona de combate encontrava-se o que restava da dizimada expedição de 1915 que, em artilharia, se compunha da 5.ª Bateria de Montanha naturalmente depauperada por um aturado serviço de vigilância a que se encontrava sujeita; como o seu estado sanitário fosse mau e o efectivo disponível para o serviço reduzidíssimo, propôs o Comando de Artilharia Expedicionária que que no inicio de Agosto, a 2.ª Bateria de Montanha marchasse para Namoto, tacticamente a mais importante localidade da frente da linha estratégica do Rovuma (excluindo Kionga, por ser fora de direcção) com o objectivo principal de render a 5.ª Bateria de Montanha que devia vir para a retaguarda reorganizar-se.



Um askari
Colecção particular

A meados de Agosto teve o comando da artilharia conhecimento de uma proposta do comando superior com o intuito de, efectuando as nossas forças no dia 19 do mês imediato a travessia do Rovuma em certos locais, elas iriam de seguida ocupar o território alemão da margem norte desse rio. Nestas operações era dada à artilharia a missão principal de apoio à infantaria que estava dividida em quatro importantes colunas.

O 1.º Grupo de Artilharia seria para tal fim concentrado em Namoto e o 2.º Grupo em Kionga. Uma divisão de artilharia, a 1.ª da 1.ª Bateria do 1.º Grupo, comandada pelo respectivo tenente,  ia-se incorporar na 4.ª coluna que era a que atravessaria para a margem norte e a montante do Nhica.

Por esta mesma data, marchou para Namoto a 2.ª Bateria de Montanha. Em fins de Agosto, foi determinado ao comandante da artilharia que mandasse escolher em Namoto o local onde deveria ser montada, sobre plataforma fixa, uma peça de 10,5cm que fora mandada de Lourenço Marques. Esta peça foi guarnecida com pessoal, então instruído, cujo o fogo seria comandado por um alferes da 5.ª Bateria de Montanha.

Peça 10,5cm em posição
Colecção particular

Na madrugada do dia 19 de Setembro 1916, e já depois de todas as unidades das três primeiras colunas terem avançado a ocupar os locais que lhes tinham sido marcados para a travessia do Rovuma, pôs-se o Quartel General em marcha, e com ele o Comando da Artilharia Expedicionária, em direcção ao local do comando escolhido. Não houve necessidade, durante a passagem das nossas forças para a margem alemã, da infantaria ou artilharia disparar um tiro. A artilharia naval do Adamastor, que fundeava próximo à foz do Rovuma, fez-se ouvir durante a passagem das colunas. A divisão da artilharia de reserva, por ordem do comando da artilharia, fez a travessia do rio para proteger o avanço da coluna da direita sob cuja direcção passaria a ficar; o seu material foi passado em jangadas até à margem esquerda e o gado foi mandado atravessar a vau onde já atravessara a coluna da esquerda. Antes disto se efectuar havia sido dado ordem ao comandante do 1.º Grupo Táctico de Artilharia para mandar abrir fogo às baterias sob as suas ordens logo que parecesse objectivo ou houvesse resistência inimiga nos correspondentes sectores. Em território alemão, junto da 1.ª linha em seguida à margem do rio, via-se, já desde a véspera, grandes queimadas, sem dúvida prenúncio de que os alemães o haviam abandonado. Quanto à 4.ª Coluna soubera-se que no dia 18 fizera a travessia do rio e, por sinal, se empenhara com pouco sucesso num reconhecimento ofensivo em frente a Nhica. O comando junto ao quartel general atravessou igualmente o rio a 19 de Setembro, indo estacionar em Migomba. Ali foi igualmente concentrar-se a 4.ª Coluna que em seguida teve que retroceder por lhe ter sido determinado a ocupação de Massassi.
O gado foi mandado passar a vau...
Colecção particular
A 22 de Setembro, depois das felicitações que, na pessoa do seu comandante, as nossas forças receberam telegraficamente dos Ministros da Guerra e Colónias, e por virtude do começo das operações (ocupações de territórios alemães além Rovuma), recebiam igualmente, segundo era notório, um comunicado do comandante-em-chefe das forças britânicas em operações na África Oriental Alemã, lembrando que Mikindani se encontrava já em poder dos ingleses. Entretanto efectuava-se um reconhecimento a esta última localidade.

Em fins do mesmo mês davam entrada num dos nossos depósitos de material, entre outros artigos de material de guerra apreendidos aos alemães, cerca de 30 espingardas, 4 metralhadoras Nordenfeldt e muitas munições.

A 26 de Setembro, depois do pedido que comandante da 5.ª Bateria de Montanha fez nesse sentido, e que justificava, é essa bateria mandada retirar da sua posição de combate.

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A 29 do mesmo mês eram fornecidas as seguintes instruções:

1.º- A Divisão de Artilharia que fez parte da coluna do Nhica passaria a fazer parte da coluna de Massassi, cujo comandante era o comandante do Batalhão de Infantaria Expedicionária N.º 24, devendo a referida divisão ir completamente dotada e com o pessoal quanto possível reforçado.

2.º - Uma bateria de artilharia deveria marchar para Palma.

3.º - A 5.ª Bateria deveria preparar-se para retirar de Palma

A 14 de Outubro seguiu o Chefe do Estado Maior da Expedição para Mocímboa do Rovuma afim de mais tarde se incorporar na coluna de Massassi. De artilharia compunha-se esta coluna da 1.ª Bateria do 1.º Grupo de Montanha. Havia igualmente uma secção de munições de artilharia da coluna de munições, que até nova ordem seria destinada para defronte de Nangade.

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 A 22 de Novembro começaram os alemães atacar Newala, com duas colunas de efectivo aproximado em 300 europeus e mais de 2000 askaris, os quais possuíam artilharia; e nesse ataque persistiram até ao dia 29, data que foi decidido da retirada das nossas forças, que regressaram a Palma.

Devo recordar que em seguida à tomada de Newala, feita aos alemães pelas nossas forças, todo o pessoal da 1.ª Bateria de Artilharia de Montanha, que então lá se encontrava, tinha sido rendida pela 2.ª Bateria de Artilharia de Montanha.

Em 3 de Dezembro ignorava-se o paradeiro de um tenente de artilharia, um dos adjuntos do comandante do 2.º Grupo de Montanha; foi então enviado a parlamentar com os alemães, e com o fim de saber onde o dito oficial se encontrava, bem como outro pessoal desaparecido, um dos capitães ajudantes do comandante da expedição o qual se fazia acompanhar do interprete de alemão. O automóvel em que regressavam, depois de se terem desempenhado da missão, foi assaltado pelos alemães no dia 7 de Dezembro no nosso posto de Matchemba, por ele terem julgado que estava ocupado pelos portugueses, tendo referido capitão sido aí morto.

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 Entretanto começara a época das chuvas, impedindo a continuação das operações, e a 21 de Março de 1917, depois de o governador de Moçambique ter vindo ao norte, onde chegou a assumir o comando-em-chefe das forças portuguesas ali em operações, mudou-se a base das operações para Mocímboa da Praia onde as unidades da nova expedição de 1917 desembarcariam.

A 14 de Abril foi transferido o Quartel General para Mocímboa da Praia, onde só existia um pequeno e depauperado núcleo da expedição de 1916.

Se consultarmos as estatísticas oficiais da expedição durante o período de que estamos a tratar, sabemos, sem incluir a artilharia da expedição de 1915, que as perdas totais sofridas pelas unidades de artilharia expedicionária, durante o referido período, foram:

- Em Pessoal (mortos, feridos, prisioneiros e desaparecidos ou
  incapazes por doença), cerca de 60% dos oficiais e 80%
 das praças.

- Em gado: quase todo quanto lhes fora destinado foi dizimado pela
  mosca tsé-tsé ou "horse-sickness".

- Em material: as perdas não só de uma bateria de artilharia de
  montanha T.R., mas ainda 30% do armamento e muitas munições.

De um modo geral são estas as impressões colhidas que procuram traduzir imparcialmente e sem críticas, o que os nossos militares de Artilharia de Montanha operaram durante a 1.ª Grande Guerra no norte de Moçambique. 

Notas:
a) Este trabalho, feito pelo signatário, foi publicado no Jornal do Exército N.º 218 de Março de 1978


Texto e ilustrações: marr