sábado, 2 de fevereiro de 2013

CORPO EXPEDICIONÁRIO PORTUGUÊS (C.E.P.) A FRANÇA 1917-18

A  ASSISTÊNCIA  RELIGIOSA

Ao comemorar-se no próximo ano de 2014 o primeiro centenário do início da Primeira Grande Guerra, não quis o responsável por este "blog" deixar de assinalar esta importante efeméride em parceria com o "site" Operacional.

Portugal só entrou na guerra no ano de 1914 em África, tendo apenas estado em França nos anos de 1917 e 1918, como este "blog" foi criado precisamente para homenagear todos esses heróis que estiveram presentes nas três frentes de batalha, Angola, Moçambique e França, recomeça-se abordando os mais diversos temas, principalmente os "menos conhecidos" ou por outras palavras os "mais esquecidos", dando-se principal destaque à parte iconográfica.

Reinicia-se com um trabalho dedicado ao tema em epígrafe, com um excelente artigo, publicado há 77 anos, escrito pelo Reverendo Padre Avelino de Figueiredo, que foi um dos primeiros sacerdotes a embarcar voluntariamente para França, deixando-nos um testemunho extraordinário sobre o que foi a Assistência Religiosa no C.E.P.. Neste sentido achei por bem transcrever o seu texto na totalidade.
O autor
Braçal da Assistência Religiosa
"Pelo Decreto n.º 2:942, de 18 de Janeiro de 1917, foi criada a Assistência Religiosa junto do Exército Português na Grande Guerra.

 Os termos deste Decreto eram tais, que o Governo português julgou não haver no país clero, que se oferecesse. Este era convidado para o sacrifício da sua tranquilidade, da sua saúde, para a morte, sem uma única garantia, ou remuneração! Nem pré de soldado lhe concedia o governo!
Padre Avelino Figueiredo (autor deste artigo) no
 caís de embarque. Colecção particular

Permitia-se a incorporação do clero no C. E. P. sem garantias de espécie alguma.

As enfermeiras eram equiparadas, para o efeito de soldo e subvenção, ao posto de alferes; os capelães equipararam-nos a alferes sem vencimento.

Os capelães de qualquer exército em campanha, na Grande Guerra, tinham o ordenado e subvenção correspondente ao seu posto, que ia desde tenente até general.

Uma excepção havia para os pobres capelães portugueses!

Um dia fui visitado em Lestrem, quando chefe dos serviços religiosos da 1.ª Divisão, pelo meu colega inglês duma Divisão do V Exército. Ele mostrou a sua indignação por me ver equiparado a alferes, pois os capelães ingleses nas minhas condições eram tenentes-coronéis.

À n/esq. o Cónego Álvaro Santos e à drt.o Padre
 Avelino Figueiredo. Colecção particular

Ignorava ele, que o chefe geral era alferes equiparado, sem vencimento. Quando os Hospitais ingleses se transferiam de Air-sur-la Lis para Merville, fui visitar os doentes portugueses que ali havia.

O capelão inglês e um seu doente, disseram-me, que não saísse, sem lhes falar. Que queriam?! Dar-me uma esmola. Como português senti-me vexado, mas não pôde rejeitá-la, tal a caridade com que a ofereceram; «para missas», por suas intenções.


Colecção particular
Porquê esta excepção?! O Governo português nunca calculou, que houvesse bastante patriotismo e fé ardente, que levasse aos campos de batalha o clero de Portugal, em condições tão desvantajosas. Verdade seja, que o episcopado do nosso país, num erro de visão, tinha resolvido opor-se à ida do seu clero para a guerra, na qualidade de capelães.

Quando o Governo português fez o oferecimento do nosso exército aos ingleses, resolveu enviá-lo sem capelães. O Governo inglês,-que tinha em cada batalhão ou hospital três capelães! Um católico, um anglicano e um prisbeteriano, ou seja um capelão de todas as religiões seguidas na Inglaterra - fez-lhe ver, que não aceitava os nossos soldados sem capelães; fossem eles de que religião fossem; mas que fossem da religião dos nossos soldados.

Reverendo Tavares de Lima. Cruz de Guerra.
 Pelo zelo com que procedeu já no seu ministério
 sagrado,já na coadjuvação dos serviços de enfermagem. Colecção particular
Os povos civilizados admitem, que os seus soldados tenham uma religião mas não os admitem sem religião, e assim os ingleses, franceses, alemães, austríacos e italianos tinham capelães junto dos seus exércitos.

Se o nosso Governo quisesse enviar capelães, não precisava, de princípio, criar o corpo de capelães-voluntários; bastava-lhe fazer seguir, com os nossos soldados os capelães, que tinha no exército, e que ainda lá estão, mas empregados em tudo menos no serviço religiosos e aperfeiçoamento moral dos nossos soldados.


Ele, porém, pretendeu simplesmente criar os capelães-voluntários, para inglês ver. Não havendo oferecimentos, não haveria capelães.
Reverendo Ângelo Ramalheiro.Cruz de Guerra. 
Pelo sangue frio com que assistiu à morte dum
soldado, sob intenso bombardeamento.
Colecção particular

Mas Deus, que se serve da mais fraca argila, para as suas obras, sugeriu a ideia do oferecimento de alguns padres, os quais tiveram a ampará-los o carinho desse alto espírito, que foi o cardeal Belo. Sua Eminência depois de lhes mostrar os inconvenientes do não oferecimento do clero para a guerra, dispensou-nos toda a sua benevolência.

Dois bispos estiveram sempre em espírito com os capelães militares -o Cardeal Patriarca e D. Sebastião, bispo de Beja.

Com o meu oferecimento para capelão do C. E. P. e a propaganda a favor dos capelães-militares começaram os oferecimentos, e formou-se o corpo dos capelães, embora tão diminuto, que não chegou para que cada unidade tivesse um capelão.


Reverendo António Rebelo dos Anjos.
Cavaleiro de Cristo. Pelo zelo invulgar
  como procedeu e pela demonstração
de coragem diante do perigo.
Colecção particular
O que de heroísmo, de fadigas e de trabalhos suportaram os capelães é assunto, que não cabe nos limites dum artigo. A sua acção com os olhos em Deus, não esperava recompensa humana.

O que é indubitável é que os capelães portugueses se equipararam em patriotismo e zelo apostólico ao clero francês, em prudência e valentia ao inglês e alemão.

Para mostrar o prestígio dos nossos capelães, basta citar um facto passado em Brest.

Um dia os aliados resolveram fazer uma festa com grande pompa na catedral de Saint Louis. Para essa festa foram convidados generais, almirantes, o perfeito marítimo de Brest, e tudo que de grande havia na capital da Bretanha.

Reverendo Dr. Luís Lopes de Melo.
Cruz de Guerra. Pela maneira como
procedeu na ambulância 1, ao ser
 bombardeada, pela decisão que mostrou e
pelo denodo com que serviu.
Colecção particular
Igualmente foram convidados os exércitos aliados. Havia ali 200 000 americanos, muitos franceses, ingleses e portugueses em pequeno número. Havia 8 capelães católicos americanos, vários franceses e alguns ingleses. Só Portugal tinha um único capelão para ali mandado, com sacrifício do front, para combater 5 capelães protestantes, que, dentro em pouco, abandonavam a cidade, e deixavam toda a acção religiosa dos nossos soldados na mão do nosso capelão.

Quem presidiu a festa tão selecta? O capelão português; tal o prestígio que o nosso padre obteve em terras de França!

O pobre pequeno núcleo de capelães portugueses em toda a parte soube impor-se pela sua linha moral, pela sua conduta, pelo seu sacrifício, pela sua ilustração, pelo seu zelo, o que nunca lhe foi reconhecido nem por gregos nem por troianos.


Cónego José do Patrocínio Dias. Chefe dos
Capelães Militares, louvado porque prestou
 importantes serviços, fazendo curativos,
e mostrando zelo e abnegação. Colecção particular.

O Corpo de Capelães Portugueses é a unidade mais citada e condecorada do C.E.P.; ganhou as suas condecorações pelos actos de abnegação, heroísmo e desprezo da vida, que praticou*.




O maior factor moral do nosso C.E.P. foi o capelão português! Para provar esta afirmação, tenho muitos casos.

Quantos espíritos abatidos pela sua prolongada permanência nas trincheiras se não fortificaram e se transformaram em heróis, devido à acção do capelão? Quantos, sem religião, não encontraram, no irmão capelão, o animador do seu espírito abatido, o enfermeiro zeloso dos seus males, o lenitivo para as suas lágrimas e dores?



Padre Abel Figueiral
. Colecção particular

A história dos capelães no C. E. P. há de fazer-se para bem do nossos esforço na guerra, para honra da religião e estigma de alguns fariseus.

O capelão era o pai de todos os que sofriam, o companheiro da suas mágoas, o participante das suas tristezas, o irmão mais velho, que para todos sorria, a todos aconselhava e por todos se sacrificava.

No fragor da batalha era o primeiro a dar um passo em frente, para animar e socorrer os soldados; nos postos avançados era o cura das almas, o enfermeiro, o representante dos antes queridos distantes, que a todos confortava.

Nas horas da bonança, nos templos improvisados ou ao ar livre, era o representante de Deus, que a todos animava, o pai benévolo que a todos perdoava, o patriota que a todos insuflava amor à Pátria, à família, e respeito pela farda, que todos vestíamos.  


Padre Manuel Lopes Ferreira
 Colecção particular
O capelão português pode dar, aos capelães de todos os exércitos, exemplos de sacrifício, de sofrimento sofrido estoicamente.

Quem sustentou a «Casa do Soldado» de Lavantie, destruída no 9 de Abril?! O capelão. Um capelão a organizou e sustentou do seu bolso. Ali encontravam os soldados e sargentos portugueses um refúgio à intempérie da Flandres.

Tinham fogões para se aquecer, instrumentos para tocar, jogos diversos, jornais portugueses de todas as cores para ler, livros, cigarros, bolos e vinhos portugueses. No fim de cada semana, os que se distinguiam tinham camisolas ou ceroulas de lã, etc.. Nunca esse capelão recebeu da Assistência Religiosa qualquer auxílio para tal benefício.
Capelão francês. Altar improvisado num armão de artilharia
Colecção particular
A tolerância do clero português e sua imparcialidade foram várias vezes postas à prova.

Eis um caso:
Em Vieille Chapelle, pela retirada do exército inglês, ficou uma igreja e uma cantina protestantes.


Capelão alemão. Colecção particular
Um dia vem-me dizer, que acabara de chegar do Brasil um missionário protestante para pregar aos nossos soldados. Pouco depois o padre protestante veio convidar-me para, na igreja protestante, presidir à primeira conferência do tal missionário. Se não aceito, nunca mais lá entrava, se aceito havia o perigo do desconhecido e do que iria passar-se. Aceitei, pedi ao sr. coronel Reis e Silva, comandante da 3.ª Brigada, para comparecer com o seu Estado Maior e mandar a música do 14. Tudo correu conforme os meus desejos.


Capelão belga com a sua montada. Colecção particular
À hora marcada iniciou-se a sessão pelo discurso do pastor protestante, que se referiu elogiosamente à minha acção.

Depois levantei-me para apresentar à assembleia o missionário protestante. este falou largamente sobre o Brasil e a acção protestante; mas de forma a não me magoar. Terminado o discurso levantei-me para falar. Sei simplesmente, que depois do meu discurso, na igreja protestante, nunca mais ninguém ali fez conferências instrutivas, senão eu.


Capelão inglês administrando a extrema unção
Colecção particular
Ali como em Brest, onde fui levado por uma missão delicada e difícil, as relações entre católicos e protestantes foram sempre as mais cordiais. Muitos serviços prestei às cantinas protestantes, que, sem auxílio do C. E. P., não poderiam cumprir a sua missão.

Fomos pessimamente recebidos em França, vigiados, espionados, e a princípio perseguidos; mas acabamos por triunfar e provar que o clero português sabe sacrificar-se pela sua Pátria e pela sua Religião.



Sentado: J. Barjona de Freitas, camachista; à sua direita
Júlio Rodrigues da Costa, livre pensador e revolucionário
republicano; à esquerda Padre Avelino de Figueiredo.
Todos amigos, porque dizem eles, acima de tudo são por-
tugueses e só pensam na sua Pátria. Colecção particular
A nossa acção foi tão evidente, e tão apreciada, que foi a grande alavanca, com que se construiu a união entre a Igreja e o Estado em Portugal. É devido ao nosso trabalho e porte no C. E. P., que a política e a religião vivem no nosso país, de mãos dadas, e ajudando-se mutuamente. A má vontade, pois, que nos recebeu, transformou-se em amizade, e a benevolência de todos até dos irreligiosos. Os capelães do C. E. P. jamais esquecerão as provas de estima e amizade, que receberam dos oficiais e soldados portugueses.

Só um facto, para terminar, para provar esta afirmação.


Capelão alemão. Colecção particular
Quando desembarquei no Entreposto de Santos, um motorista militar e desconhecido, acercou-se de mim e perguntou se trazia bagagem ou coisas sujeitas a alfândega.

Respondi-lhe que trazia a minha mala, a bicicleta, recordações da guerra, tais como granadas de diversos formatos, uma arma alemã, etc. Ele foi ao meu camarote, carregou tudo aos ombros e pôs no camião do Estado. Dali foi levar, o que me pertencia, única riqueza, que me deixou a guerra à Ordem Terceira de S. Francisco da Cidade, onde fui recebido por esmola e onde comi sopa dos pobres, durante oito meses até ganhar para poder comer e alugar um quarto. No dia seguinte voltei ao Entrepostos de Santos, para gratificar o gentil motorista.


Uma capela e o seu capelão francês. Colecção particular
Quando me dispunha a abrir o
dólman, para gratificar este filho do povo, que eu não conhecia, perfilou-se, fez-me a continência e exclamou: «Ó meu alferes, vai ofender-me, não aceito nada, porque sei o que fez por meus irmãos em França!»

O seu reconhecimento pagou de sobra tudo, o que eu possa ter feito pelo meu país e pelos meus queridos e inolvidáveis soldados, sempre tão obedientes e valentes."

                                                         Padre Avelino de Figueiredo

In: Revista "Defesa Nacional" de 1936

Capelães franceses e o seu meio de transporte
Colecção particular
*Outros sacerdotes portugueses receberam igualmente recompensas aos seus altos feitos e foram ainda condecorados com a Cruz de Guerra os reverendos Manuel Caetano, pelo seu assombroso sangue frio na batalha do 9 de Abril, e o cónego Álvaro dos Santos, pelo mesmo motivo. Também receberam louvores mais alguns padres portugueses e entre eles o reverendo padre Avelino Simões de Figueiredo.

Coorden. e iconografia: marr

terça-feira, 20 de março de 2012

CORPO EXPEDICIONÁRIO PORTUGUÊS (C.E.P.) A FRANÇA 1917/1918

O SOLDADO PORTUGUÊS EM FRANÇA



O Cabo "Sementes"
Cliché de Garcez
In: Portugal na Grande Guerra
do General Ferreira Martins
"Quando hoje se ouve dizer, - os soldados são excelentes,- não é isto um simples cumprimento: são-o realmente. Há neles alguma coisa grande e de belo sob a sua casca rude; a sua delicadeza é toda interior. Pertencendo à categoria dos "incultos, rudes, mal educados, sem preparação, sem maneiras", é nesta vida selvagem da trincheira que mostram o que são e o que valem; - verdadeiros
tesouros sem baixeza nem crueldade. Espreitam o alemão pela ranhura de mira da alça e metem-lhe a bala na cabeça, se o "boche" cai em a meter na sua linha de mira; mas se um "boche" que o fere, levanta em seguida, ferido também, as mãos, agarra nele, leva-o à ambulância, cura-o, dá-lhe o seu pão, dá-lhe o seu vinho, dá-lhe a sua camisa.

Devemos todos inclinar-nos cheios de respeito e cheios de admiração diante deste pobre  "gambúzio", que meteram num navio com uma arma às costas, sem lhe dizerem para onde ia; que colocaram numa trincheira diante do "boche", sem lhe dizerem por que se batia; que passou meses queimado pelo sol do fogo, enregelado pela neve, atascado em lama, encharcado, tiritando com frio, encolhido num buraco enquanto as granadas lhe estoiram em redor; carregando à baioneta quando o "boche" avança e que, com uma perna partida, ou o crânio amachucado por uma bala, estendido no catre da ambulância, ao ver-nos, tinha uma alegria imensa no olhar, murmurando:
    -  O nosso giniral! Aí vem o nosso giniral!
    - Oh meu giniral, agora ganhei a Cruz de Guerra? Pois não?

                                                                                             (Colecção particular)

E nunca me há de esquecer a impressão que um destes pobres seres me causou, quando, ao pregar-lhe a Cruz na camisa da ambulância que vestia, o pobre, não podendo mexer os braços, ambos partidos, estendeu a cabeça e me beijou as mãos...

E outro, muito pequeno, a quem ao dar-lhe o abraço que era costume meu dar àqueles que recebiam a Cruz de Guerra, me abraçou pela cintura e ali ficou preso numa convulsão...

São verdadeiros tesouros, que não podemos deixar de estimar e admirar depois de com eles viver na guerra. E é por isso que natural e instintivamente, os que como eu compreendem põem na continência, com que à sua correspondem, um respeito real e sincero, que está fora dos nossos hábitos.

E há resmungões no meio de isto tudo, porque resmungar é uma paixão do soldado, ou por outra uma distracção, quando tudo corre bem! Pelo contrário, quando tudo vai mal, ninguém resmunga.



                                                                                                  (Colecção particular)

Ao terminarem um parapeito, com toda a perfeição, a terra varrida à vassoura, os taludes bem direitos, as arestas bem vivas, vem um morteiro pesado e esmaga tudo.

O bom do "gambúzio" olha para a sua obra de oito dias destruída, e resmunga:
     -  Ora, responde outro, isto é bom para não engordarmos muito.

A noite é escura, o frio aperta, os homens estão cobertos de lama gelada, o seu dia de trabalho destruiu-o o "boche" num minuto, é preciso recomeçá-lo; e, sem mau humor, recomeçam-no.

Era preciso uma pena fácil e elegante para mostrar a todo o Portugal quanto valem os nossos soldados e quanto merecem que por ele façam.


General Gomes da Costa
(Colecção particular)

A morte, encaram-na de frente e rindo, e em cada minuto da vida de trincheira praticam actos de generosidade, desprendimento e heroísmo espontâneo, que na vida civil estabeleceriam reputação."

                                                          Gomes da Costa
                                                                 General
                                      Comandante da 1.ª e 2.ª Divisão do C.E.P.

Coorden. do texto: marr


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

NAULILA - ANGOLA

18 DE DEZEMBRO DE 1914
NAULILA, SUL DE ANGOLA

Formatura no Lubango, antes de partirem ao encontro dos alemães
Poder-se-á resumir assim o combate de Naulila conforme o testemunho do Tenente Ernesto Moreira dos Santos:

(...) Ouviu-se um nervoso toque de alarme. Logo de seguida soube-se que uma força dos nossos postos avançados tinham retirado do flanco esquerdo. Simultâneamente irrompe um nutrido fogo de artilharia no nossos flanco esquerdo, surpreendendo-nos. A seguir, rajadas de metralhadora cuspiam pelo espaço as suas mortíferas balas. Começámos a ver rastejando a infantaria inimiga à qual o sol batendo-nos me cheio nos olhos, não deixa fazer a pontaria; mal se divisam vultos indistintos, aparecendo e desaparecendo nos claros das ondulações do terreno. O tiroteio aumentava num crescer diabólico. O comandante de pelotão dá ordens a uma meia dúzia de homens do flanco esquerdo para dirigirem o seu fogo naquela direcção. O comandante de companhia, Capitão Homem Ribeiro, de binóculo em punho, diligente, de um lado para o outro, procura regular o tiro, animando, encorajando, valente e intemerato...foi o primeiro a cair morto (...)



Dispositivo das forças pelas 12 horas de 17 de Dezembro
 (...) Os artilheiros alemães com uma peça que tinham feito avançar, mascarada com uma viatura da Cruz Vermelha, contra todos os regulamentos de Haia, flagela-nos de surpresa, com tiros de lanterneta, enfiando-nos a trincheira. Ao 6.º tiro da artilharia alemã, rompe o incêndio nas palhotas do Posto, que serviam de paiol a milhares de cartuchos para todas as bocas de fogo. Os cunhetes das munições de infantaria e os cofres das munições da artilharia, com o calor do incêndio, rebentavam e as suas balas caíam em cima dos defensores da trincheira. Era um horror! (...)

(...) Nós, no Posto, éramos infelizes em tudo e desafortunados sob vários aspectos. Perto das oito horas, depois de um terrível tiroteio de fogo vivo, algumas armas disparavam-se por si, devido ao aquecimento. O tiro partia imediatamente logo que se fechava a culatra. Houve bastantes ferimentos nos dedos, por queimaduras.(...)





Dragões de Angola

(...)Às oito horas e quinze minutos, ouve-se na retaguarda do inimigo, que se encontra a escassos metros de nós, um alarido surdo, seguindo-se um enfraquecimento do fogo das metralhadoras inimigas. Um punhado dos nossos Dragões* com cavalos chagados e esqueléticos, conseguiu dar uma carga, num terreno coberto de espinheiros, cujos bicos, são chamados de unhas de gato, lançando o pânico nas fileiras adversas, conseguindo baixar nas guarnições de duas peças de artilharia (...)









A marcha das forças alemãs para o combate, em 17/18 de Dezembro.
Movimento e acção do Esquadrão de Dragões
 (...) Foi tão eficaz esta carga, por meia dúzia de homens, destacando-se o Tenente Aragão, o Alferes Serrano entre outros, feita à retaguarda do flanco da posição da artilharia inimiga, que os surpreendeu, rolando alguns desses artilheiros pelo chão, destroçados (...)


A chegado ao Lubango do resto do 1.º Esquadrão de Dragões que tão cora-
josamente atacou os alemães em 18 de Dezembro de 1914. à frente o
Comandante Tenente Artur Matias


(...) Desta carga e desde o local da artilharia inimiga até ao nossos Postos, caíram quase todos os cavaleiros e cavalos, mortos ou feridos, pelas metralhadoras alemãs, voltadas em massa contra eles (...) Só quem presenciou pode avaliar tamanha ousadia e ânsia em salvar a Infantaria e em honrar as nobres tradições da Cavalaria (...)  Tratava-se do 1.º Esquadrão de Dragões de Angola, comandados pelo valoroso Tenente Aragão.



metralhadoras e a 10ª Companhia de Landins na face direita
 Regressando ao testemunho do Tenente Ernesto Moreira dos Santos: (...) Aquando da carga dos Dragões, recebeu-se uma ordem rápida, nervosa, quase uma sentença de morte: o Comandante do pelotão, Tenente Marques, vendo as nossas munições a dizimarem os seus soldados devido ao incêndio do paiol, manda armar baioneta, ordem que é transmitida de homem a homem e a um dado sinal, saltou-se a trincheira e num marche, marche inigualável, quase inacreditável, aos gritos de: "avança...avança..."  como naquele tempo se faziam as cargas, se avançou numa corrida fulgurante, contra o inimigo, quase contra a morte, uns 50 a 60 metros, para nos determos próximo de um imbondeiro, derrubados pela artilharia alemã (...)

Soldados alemães

(...) Caíram muitos, é certo, mas naquele arranco até o inimigo ficou surpreso. Tendo passado para a história a frase do Comandante do meu pelotão: " Antes morrer pelas balas do inimigo, do que pelas nossas!"  Tratava-se do pelotão do Tenente Marques da 12.ª Companhia de Infantaria N.º 14.




(...) Foi pena a falta de reforços naquele momento. Bastava mais um pelotão para se prosseguir naquele avanço e nenhum alemão voltaria à Damara (...)






(...) Só às nove horas menos um quarto os alemães ocuparam o Posto. O comandante de pelotão ainda combatia, agarrado a uma arma. Foi o último a entregá-la, depois do assalto da infantaria alemã, numa carga impetuosa e cerrada. Eu jazia no chão, com a perna direita ferida por um estilhaço de granada, o ante-braço esquerdo furado por uma baioneta, o parietal direito ferido e o maxilar inferior partido (...)




Grupo de oficiais que combateram em Naulila. Sentados da direita para a esquerda:
Capitães Reis e Patacho, Tenente Sabo e Alferes Menezes. De pé, também da di-
reita para a esquerda, Tenente Stockler, Alferes  Veterinário Abade, Tenente
Bettencourt e Tenente Matias
(...) Tinha sido cumprida a nossa missão: RESISTIR ATÉ AO SACRIFÍCIO! Para que as forças dos Morros de Caluéque, pudessem retirar para o Norte (...)

(...) Foi assim que se bateram em Naulila os soldados portugueses em baptismo de fogo, o primeiro combate de que reza a história de Portugal que se travou contra soldados alemães (...) 


Grupo de Sargentos que estiveram em Naulila
(...) Mesmo assim, eu pergunto: Venceram os alemães em Naulila? Não! Venceram os portugueses? Não! Foi um combate indeciso... mas para os portugueses, foi mais honroso. Os alemães tinham o comandamento do terreno; o quíntuplo do efectivo; armamento moderníssimo (1912). Nós o de 1904! (...)



MORTOS E FERIDOS EM NAULILA

Mortos
3 oficiais, 54 praças europeias e 12 indígenas

Feridos
5 oficiais, 61 praças europeias e 10 indígenas

Prisioneiros
3 oficiais e 34 praças europeias

Enforcados
Todos os soldados indígenas LANDINS, que os alemães aprisionaram e depois executaram

Ernesto Moreira dos Santos
           "Cobiça de Angola"
























Homenagem prestada ao heróico Comandante do 1.º Esquadrão dos Dragões de Angola Tenente Francisco Xavier da Cunha Aragão  que se destacou na carga de Naulila.


* Os uniformes, armamento e equipamento das tropas ultramarinas e das indígenas será um assunto a  tratar oportunamente.

Coorden. do texto e ilustrações: marr