quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

NAULILA - ANGOLA

18 DE DEZEMBRO DE 1914
NAULILA, SUL DE ANGOLA

Formatura no Lubango, antes de partirem ao encontro dos alemães
Poder-se-á resumir assim o combate de Naulila conforme o testemunho do Tenente Ernesto Moreira dos Santos:

(...) Ouviu-se um nervoso toque de alarme. Logo de seguida soube-se que uma força dos nossos postos avançados tinham retirado do flanco esquerdo. Simultâneamente irrompe um nutrido fogo de artilharia no nossos flanco esquerdo, surpreendendo-nos. A seguir, rajadas de metralhadora cuspiam pelo espaço as suas mortíferas balas. Começámos a ver rastejando a infantaria inimiga à qual o sol batendo-nos me cheio nos olhos, não deixa fazer a pontaria; mal se divisam vultos indistintos, aparecendo e desaparecendo nos claros das ondulações do terreno. O tiroteio aumentava num crescer diabólico. O comandante de pelotão dá ordens a uma meia dúzia de homens do flanco esquerdo para dirigirem o seu fogo naquela direcção. O comandante de companhia, Capitão Homem Ribeiro, de binóculo em punho, diligente, de um lado para o outro, procura regular o tiro, animando, encorajando, valente e intemerato...foi o primeiro a cair morto (...)



Dispositivo das forças pelas 12 horas de 17 de Dezembro
 (...) Os artilheiros alemães com uma peça que tinham feito avançar, mascarada com uma viatura da Cruz Vermelha, contra todos os regulamentos de Haia, flagela-nos de surpresa, com tiros de lanterneta, enfiando-nos a trincheira. Ao 6.º tiro da artilharia alemã, rompe o incêndio nas palhotas do Posto, que serviam de paiol a milhares de cartuchos para todas as bocas de fogo. Os cunhetes das munições de infantaria e os cofres das munições da artilharia, com o calor do incêndio, rebentavam e as suas balas caíam em cima dos defensores da trincheira. Era um horror! (...)

(...) Nós, no Posto, éramos infelizes em tudo e desafortunados sob vários aspectos. Perto das oito horas, depois de um terrível tiroteio de fogo vivo, algumas armas disparavam-se por si, devido ao aquecimento. O tiro partia imediatamente logo que se fechava a culatra. Houve bastantes ferimentos nos dedos, por queimaduras.(...)





Dragões de Angola

(...)Às oito horas e quinze minutos, ouve-se na retaguarda do inimigo, que se encontra a escassos metros de nós, um alarido surdo, seguindo-se um enfraquecimento do fogo das metralhadoras inimigas. Um punhado dos nossos Dragões* com cavalos chagados e esqueléticos, conseguiu dar uma carga, num terreno coberto de espinheiros, cujos bicos, são chamados de unhas de gato, lançando o pânico nas fileiras adversas, conseguindo baixar nas guarnições de duas peças de artilharia (...)









A marcha das forças alemãs para o combate, em 17/18 de Dezembro.
Movimento e acção do Esquadrão de Dragões
 (...) Foi tão eficaz esta carga, por meia dúzia de homens, destacando-se o Tenente Aragão, o Alferes Serrano entre outros, feita à retaguarda do flanco da posição da artilharia inimiga, que os surpreendeu, rolando alguns desses artilheiros pelo chão, destroçados (...)


A chegado ao Lubango do resto do 1.º Esquadrão de Dragões que tão cora-
josamente atacou os alemães em 18 de Dezembro de 1914. à frente o
Comandante Tenente Artur Matias


(...) Desta carga e desde o local da artilharia inimiga até ao nossos Postos, caíram quase todos os cavaleiros e cavalos, mortos ou feridos, pelas metralhadoras alemãs, voltadas em massa contra eles (...) Só quem presenciou pode avaliar tamanha ousadia e ânsia em salvar a Infantaria e em honrar as nobres tradições da Cavalaria (...)  Tratava-se do 1.º Esquadrão de Dragões de Angola, comandados pelo valoroso Tenente Aragão.



metralhadoras e a 10ª Companhia de Landins na face direita
 Regressando ao testemunho do Tenente Ernesto Moreira dos Santos: (...) Aquando da carga dos Dragões, recebeu-se uma ordem rápida, nervosa, quase uma sentença de morte: o Comandante do pelotão, Tenente Marques, vendo as nossas munições a dizimarem os seus soldados devido ao incêndio do paiol, manda armar baioneta, ordem que é transmitida de homem a homem e a um dado sinal, saltou-se a trincheira e num marche, marche inigualável, quase inacreditável, aos gritos de: "avança...avança..."  como naquele tempo se faziam as cargas, se avançou numa corrida fulgurante, contra o inimigo, quase contra a morte, uns 50 a 60 metros, para nos determos próximo de um imbondeiro, derrubados pela artilharia alemã (...)

Soldados alemães

(...) Caíram muitos, é certo, mas naquele arranco até o inimigo ficou surpreso. Tendo passado para a história a frase do Comandante do meu pelotão: " Antes morrer pelas balas do inimigo, do que pelas nossas!"  Tratava-se do pelotão do Tenente Marques da 12.ª Companhia de Infantaria N.º 14.




(...) Foi pena a falta de reforços naquele momento. Bastava mais um pelotão para se prosseguir naquele avanço e nenhum alemão voltaria à Damara (...)






(...) Só às nove horas menos um quarto os alemães ocuparam o Posto. O comandante de pelotão ainda combatia, agarrado a uma arma. Foi o último a entregá-la, depois do assalto da infantaria alemã, numa carga impetuosa e cerrada. Eu jazia no chão, com a perna direita ferida por um estilhaço de granada, o ante-braço esquerdo furado por uma baioneta, o parietal direito ferido e o maxilar inferior partido (...)




Grupo de oficiais que combateram em Naulila. Sentados da direita para a esquerda:
Capitães Reis e Patacho, Tenente Sabo e Alferes Menezes. De pé, também da di-
reita para a esquerda, Tenente Stockler, Alferes  Veterinário Abade, Tenente
Bettencourt e Tenente Matias
(...) Tinha sido cumprida a nossa missão: RESISTIR ATÉ AO SACRIFÍCIO! Para que as forças dos Morros de Caluéque, pudessem retirar para o Norte (...)

(...) Foi assim que se bateram em Naulila os soldados portugueses em baptismo de fogo, o primeiro combate de que reza a história de Portugal que se travou contra soldados alemães (...) 


Grupo de Sargentos que estiveram em Naulila
(...) Mesmo assim, eu pergunto: Venceram os alemães em Naulila? Não! Venceram os portugueses? Não! Foi um combate indeciso... mas para os portugueses, foi mais honroso. Os alemães tinham o comandamento do terreno; o quíntuplo do efectivo; armamento moderníssimo (1912). Nós o de 1904! (...)



MORTOS E FERIDOS EM NAULILA

Mortos
3 oficiais, 54 praças europeias e 12 indígenas

Feridos
5 oficiais, 61 praças europeias e 10 indígenas

Prisioneiros
3 oficiais e 34 praças europeias

Enforcados
Todos os soldados indígenas LANDINS, que os alemães aprisionaram e depois executaram

Ernesto Moreira dos Santos
           "Cobiça de Angola"
























Homenagem prestada ao heróico Comandante do 1.º Esquadrão dos Dragões de Angola Tenente Francisco Xavier da Cunha Aragão  que se destacou na carga de Naulila.


* Os uniformes, armamento e equipamento das tropas ultramarinas e das indígenas será um assunto a  tratar oportunamente.

Coorden. do texto e ilustrações: marr

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ALGUMAS ACÇÕES DA ARMADA EM ÁFRICA

MOÇAMBIQUE

TRANSPORTE PEBANE
(ex-vapor alemão Kadett)

















Em 16 de Dezembro de 1915, zarpou para Moçambique o cruzador Adamastor para prestar serviço naquelas paragens, cooperando com a esquadra britânica do Cabo nas operações de guerra do Leste Africano Alemão, e auxiliando as nossas tropas em acção no norte da  então Província Ultramarina.

TRANSPORTE LUABO
Cooperavam com o Adamastador, nos serviços de campanha, a pequena canhoneira Chaimite e os vapores auxiliares Luabo, Pebane e Pungue, tendo-se previamente tomado posse dos navios mercantes alemães fundeados nas nossas águas, não havendo, por essa altura, notícias de navios inimigos na nossa zona marítima.


TRANSPORTE PUNGUÉ
(ex-cargueiro de longo curso alemão Linda Woermann)

















 Encontrando-se o Adamastor e a Chaimite na foz do rio Rovuma, procedendo ao abastecimento dos nossos postos militares, organizou-se uma esquadrilha de embarcações a vapor e a remos para se proceder ao reconhecimento do rio, a fim de as forças do exército em operações naquele local poderem atravessar para a outra margem. Em 27 de Janeiro de 1916, tendo o cruzador e o posto português de Namaca, na margem direita, previamente bombardeado as posições inimigas da margem oposta, e supondo-se estas abandonadas, as embarcações aproximaram-se então da margem alemã, quando de improviso um fogo nutrido e incessante de metralhadoras as colheu, sendo mortos 1 guarda-marinha e 10 praças; feridos 1 guarda-marinha, 1 sargento e 7 praças; prisioneiro o 1.º Tenente Matos Preto, comandante da Chaimite, que só foi restituído à liberdade, em 29 de Novembro de 1917, quando as forças alemãs, acossadas pelos ingleses, se desfizeram dos prisioneiros de guerra.



CANHONEIRA CHAIMITE
Guarnição: 3 oficiais, 5 sargentos e 45 praças
Armamento: 2 peças Hotchkiss de 47mm/40 calibres e 2 metralhadoras
Nordenfelt de 11,4mm





















Durante a campanha esteve o Adamastor colaborando nas operações, percorrendo os postos da costa oriental, de Natal a Zanzibar, com excepção do tempo em que reparações o retiveram em Lourenço Marques.


CRUZADOR ADAMASTOR
Guarnição: 206 homens sendo 14 oficiais
Armamento:2 peças Krupp de 150mm/30 calibres; 4 peças Krupp de 105mm/
40 calibres;4 peças Hotchkiss de 65mm/46 calibres; 2 peças Hotchkiss de 37mm/42 calibres;
2 metralhadoras Nordenfelt de 6,5mm e 3 tubos lança-torpedos

Estacionou por mais tempo junto ao comando das forças do exército, em Porto Amélia e depois em Mocímboa da Praia (a) , com a sua guarnição enfraquecida por um serviço duro e pela acção do clima, que em terra produzia muito mais vitimas do que as balas inimigas
Esboço rápido do rio Rovuma desde a foz até Namiranga, conforme
as observações da esquadrilha de embarcações do Adamastor de 21
a 28 de Maio de 1916 do Capitão-Tenente Quirino da Fonseca
(a) Em Setembro de 1916 fez diversos bombardeamentos contra território inimigo para facilitar a passagem do Rovuma pelas nossas tropas, nomeadamente a Artilharia de Montanha (vide artigo já editado a esse respeito)

Texto coorden. por: marr

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

TROPAS EXPEDICIONÁRIAS PARA ÁFRICA

ARMAMENTO E EQUIPAMENTO

OFICIAIS
O material levado para África seguiu praticamente a mesma filosofia dos uniformes, isto é, como havia em reserva muitos modelos anteriores a 1912, foi dada prioridade de utilização ao material mais antigo.

Assim, podia-se ver oficiais equipados com o antigo sistema inglês "Sam Browne", que praticamente consistia em: cinturão, suspensórios (muito pouco utilizados), as diagonais (também conhecido por talabartes), suspensão para espada, etc., este material era confeccionado em couro castanho e as fivelas em latão.

Além deste equipamento os oficiais ainda podiam utilizar, caso fosse necessário: suspensão de capote, bornal, cantil e malote.

PRAÇAS
Os soldados na sua maioria utilizavam cinturão, suspensórios (erradamente chamados arreios), porta cartuchos, pala para baioneta, tudo de couro preto com fivelas, presilhas e botões de latão amarelo, contudo podiam-se ver estes equipamentos dos mais diversos modelos, antigos e muito antigos.

Utilizava-se ainda, caso o serviço o assim o exigisse: bornal, mochila, cantil e marmita.

ARMAMENTO

ESPADAS

GENERAIS
UNIFORME DE CAMPANHA

ESPADA
M/1892 com copos de ferro polido, de meia roca, lixa cravada no metal e na parte inferior do punho, para firmeza do dedo polegar e alça de couro presa na montagem do punho pela parte oposta, para introdução do dedo indicador.


Colecção particular

BAINHA


Colecção
particular
 
De ferro polido ou  metal branco m/1895 para cavalaria

FIADOR


Colecção
particular
 
De couro preto



















Observação: O desenho do guarda-mão deste modelo de espada variava muito, na medida em que eram adquiridas em Inglaterra e os fabricantes nem sempre obedeciam fielmente ao modelo do padrão enviado, aliás muitos eram do padrão inglês.


 
ENGENHARIA E INFANTARIA

ESPADA
Empunhadura e copos de metal dourado, m/1892


Colecção particular
  BAINHA


Colecção
particular
  De ferro polido, assim como as braçadeiras









FIADOR
Como o anterior










ARTILHARIA E CAVALARIA

ESPADA
Empunhadura e copos de metal branco,m/1892


Colecção particular
 

BAINHA
De ferro polido ou metal branco, m/1895, conforme a figura apresentada nos generais.

FIADOR
Como o anterior


PRAÇAS DE CAVALARIA
Espada, bainha e fiador igual aos dos oficiais embora de acabamento menos cuidado.


ARMAS DE FOGO

OFICIAIS

PISTOLA


Luger Parabellum de 9mm, m/1908










REVÓLVER
Abadie de 9mm, m/1886














Colecção particular

Este colocava-se num estojo de couro envernizado de preto, suspenso de um cinturão do mesmo material e cor. O fiador de cordão de seda preta, com dois passadores, confeccionados no mesmo material.




Embora a primeira pistola fosse mais moderna, a grande maioria dos oficiais preferiam, em África, utilizar o velho revólver Abadie, porque era mais robusto e necessitava de menos cuidados de manutenção, principalmente em locais muito arenoso, que era o caso.


PRAÇAS



CARABINA
Mannelicher de 6,5mm, para cavalaria, m/1896










ESPINGARDA
Mauser-Vergueiro de 6,5mm  (.58 português), m/1904










METRALHADORAS
Vickers-Maxim de 6,5mm, m/1906

 
Colecção particular


ARTILHARIA

PEÇAS:
- Erhardt
- Hotchkiss, 37mm

Colecção particular
- Schneider-Cannet, 75mm, tiro rápido










                                               - Krupp, diversos modelos
                                               - B.E.M. 80mm, de montanha, m/1872










Texto e ilustrações:marr