sábado, 9 de julho de 2011

ARTILHARIA DE MONTANHA

 A ARTILHARIA DE MONTANHA EXPEDICIONÁRIA A MOÇAMBIQUE
 EM 1916 (a)

Os acontecimentos aqui narrados passaram-se durante o período de Abril de 1916 ao mesmo mês do ano seguinte. Pelo leitura do que se irá seguir poderemos, pelo menos, confirmar que a Artilharia Expedicionária soube sempre, embora com parcos recursos e muitos sacrifícios, cumprir o seu dever.

Antes de entrarmos na parte descritiva da acção destes Expedicionários, iremos analisar o ponto da situação, primeiramente no que diz respeito ao pessoal:

a) Das unidades de artilharia desde o oficial ao soldado e principalmente os do 2.º Grupo entraram em campanha com uma instrução reduzidíssima, e mesmo o 1.º Grupo a instrução que foi por ele recebida em Vendas Novas, antes do seu embarque, foi muito pouca, utilizando apenas esse estágio com alguma vantagem na construção de tábuas de tiro de peça;

b)  Dos oficiais de artilharia de montanha, nomeadamente para esta expedição, só dois tinham já prestado serviço nesta especialidade de artilharia; dos restantes era muito mal conhecida; 

c) Que, depois para o mesmo fim nomeadas, as praças deviam ser sujeitas a uma inspecção médica e não serem incluídas, naquele número, praças que ainda no passado mês de Dezembro haviam regressado de expedições ao Ultramar.

No respeitante ao gado:
Como fora adquirido pela remonta, pouco tempo antes do embarque das unidades, é mais que evidente que não devia ser durante a campanha pela primeira vez trabalhado, mas foi...

Sobre o material observou-se o seguinte:

a) As unidades de artilharia não deviam ter seguido para África com algumas faltas importantes como: carro de munições, sitometros, etc. Os primeiros ainda chegaram a ser enviados, mas bastante mais tarde.

b) A dotação de munições de artilharia das unidades não devia ser, como as circunstâncias a isso obrigaram, assim tão exígua (só 15 granadas explosivas por boca de fogo) e tanto mais que havia já conhecimento de que estava reduzida a 50 granadas a dotação da bateria que se encontrava em Moçambique desde 1915. A dotação de granadas com balas das unidades era de 400 por boca de fogo.

Apesar deste estado de coisas, foi assim que tudo quanto constituía esta expedição teve ordem para embarcar para Moçambique com destino a Palma.

Colecção particular
Palma, como se sabe, é o porto mais a norte de Moçambique, embora representado em qualquer carta geográfica pelo sinal convencional designativo de "cidade ou vila", esta era constituída apenas por duas ou três habitações rudimentares para europeus e algumas de indígenas. Além disso era um porto de mar desprovido de cais e, nestas condições, faça-se pois ideia do enorme intervalo entre a partida de uma assim tão avultada expedição e o seu completo e seguro desembarque no ponto do destino. Resumindo: os processos ainda ali eram extraordinariamente primitivos e daí as enormes dificuldades que a cada passo lá surgiam para as forças da expedição, e a propósito fosse do que fosse; quanto a preparativos de recepção da expedição, pouco mais havia do que mato capinado, numa certa extensão de Palma, de modo a bivacar-se rapidamente.

Logo à chegada foi o comando da artilharia da expedição encarregado da construção de paióis que ficaram concluídos passado sensivelmente um mês.

Palma já era considerada uma base marítima de operações. Na frente da zona de combate encontrava-se o que restava da dizimada expedição de 1915 que, em artilharia, se compunha da 5.ª Bateria de Montanha naturalmente depauperada por um aturado serviço de vigilância a que se encontrava sujeita; como o seu estado sanitário fosse mau e o efectivo disponível para o serviço reduzidíssimo, propôs o Comando de Artilharia Expedicionária que que no inicio de Agosto, a 2.ª Bateria de Montanha marchasse para Namoto, tacticamente a mais importante localidade da frente da linha estratégica do Rovuma (excluindo Kionga, por ser fora de direcção) com o objectivo principal de render a 5.ª Bateria de Montanha que devia vir para a retaguarda reorganizar-se.



Um askari
Colecção particular

A meados de Agosto teve o comando da artilharia conhecimento de uma proposta do comando superior com o intuito de, efectuando as nossas forças no dia 19 do mês imediato a travessia do Rovuma em certos locais, elas iriam de seguida ocupar o território alemão da margem norte desse rio. Nestas operações era dada à artilharia a missão principal de apoio à infantaria que estava dividida em quatro importantes colunas.

O 1.º Grupo de Artilharia seria para tal fim concentrado em Namoto e o 2.º Grupo em Kionga. Uma divisão de artilharia, a 1.ª da 1.ª Bateria do 1.º Grupo, comandada pelo respectivo tenente,  ia-se incorporar na 4.ª coluna que era a que atravessaria para a margem norte e a montante do Nhica.

Por esta mesma data, marchou para Namoto a 2.ª Bateria de Montanha. Em fins de Agosto, foi determinado ao comandante da artilharia que mandasse escolher em Namoto o local onde deveria ser montada, sobre plataforma fixa, uma peça de 10,5cm que fora mandada de Lourenço Marques. Esta peça foi guarnecida com pessoal, então instruído, cujo o fogo seria comandado por um alferes da 5.ª Bateria de Montanha.

Peça 10,5cm em posição
Colecção particular

Na madrugada do dia 19 de Setembro 1916, e já depois de todas as unidades das três primeiras colunas terem avançado a ocupar os locais que lhes tinham sido marcados para a travessia do Rovuma, pôs-se o Quartel General em marcha, e com ele o Comando da Artilharia Expedicionária, em direcção ao local do comando escolhido. Não houve necessidade, durante a passagem das nossas forças para a margem alemã, da infantaria ou artilharia disparar um tiro. A artilharia naval do Adamastor, que fundeava próximo à foz do Rovuma, fez-se ouvir durante a passagem das colunas. A divisão da artilharia de reserva, por ordem do comando da artilharia, fez a travessia do rio para proteger o avanço da coluna da direita sob cuja direcção passaria a ficar; o seu material foi passado em jangadas até à margem esquerda e o gado foi mandado atravessar a vau onde já atravessara a coluna da esquerda. Antes disto se efectuar havia sido dado ordem ao comandante do 1.º Grupo Táctico de Artilharia para mandar abrir fogo às baterias sob as suas ordens logo que parecesse objectivo ou houvesse resistência inimiga nos correspondentes sectores. Em território alemão, junto da 1.ª linha em seguida à margem do rio, via-se, já desde a véspera, grandes queimadas, sem dúvida prenúncio de que os alemães o haviam abandonado. Quanto à 4.ª Coluna soubera-se que no dia 18 fizera a travessia do rio e, por sinal, se empenhara com pouco sucesso num reconhecimento ofensivo em frente a Nhica. O comando junto ao quartel general atravessou igualmente o rio a 19 de Setembro, indo estacionar em Migomba. Ali foi igualmente concentrar-se a 4.ª Coluna que em seguida teve que retroceder por lhe ter sido determinado a ocupação de Massassi.
O gado foi mandado passar a vau...
Colecção particular
A 22 de Setembro, depois das felicitações que, na pessoa do seu comandante, as nossas forças receberam telegraficamente dos Ministros da Guerra e Colónias, e por virtude do começo das operações (ocupações de territórios alemães além Rovuma), recebiam igualmente, segundo era notório, um comunicado do comandante-em-chefe das forças britânicas em operações na África Oriental Alemã, lembrando que Mikindani se encontrava já em poder dos ingleses. Entretanto efectuava-se um reconhecimento a esta última localidade.

Em fins do mesmo mês davam entrada num dos nossos depósitos de material, entre outros artigos de material de guerra apreendidos aos alemães, cerca de 30 espingardas, 4 metralhadoras Nordenfeldt e muitas munições.

A 26 de Setembro, depois do pedido que comandante da 5.ª Bateria de Montanha fez nesse sentido, e que justificava, é essa bateria mandada retirar da sua posição de combate.

Colecção particular

A 29 do mesmo mês eram fornecidas as seguintes instruções:

1.º- A Divisão de Artilharia que fez parte da coluna do Nhica passaria a fazer parte da coluna de Massassi, cujo comandante era o comandante do Batalhão de Infantaria Expedicionária N.º 24, devendo a referida divisão ir completamente dotada e com o pessoal quanto possível reforçado.

2.º - Uma bateria de artilharia deveria marchar para Palma.

3.º - A 5.ª Bateria deveria preparar-se para retirar de Palma

A 14 de Outubro seguiu o Chefe do Estado Maior da Expedição para Mocímboa do Rovuma afim de mais tarde se incorporar na coluna de Massassi. De artilharia compunha-se esta coluna da 1.ª Bateria do 1.º Grupo de Montanha. Havia igualmente uma secção de munições de artilharia da coluna de munições, que até nova ordem seria destinada para defronte de Nangade.

Colecção particular
 A 22 de Novembro começaram os alemães atacar Newala, com duas colunas de efectivo aproximado em 300 europeus e mais de 2000 askaris, os quais possuíam artilharia; e nesse ataque persistiram até ao dia 29, data que foi decidido da retirada das nossas forças, que regressaram a Palma.

Devo recordar que em seguida à tomada de Newala, feita aos alemães pelas nossas forças, todo o pessoal da 1.ª Bateria de Artilharia de Montanha, que então lá se encontrava, tinha sido rendida pela 2.ª Bateria de Artilharia de Montanha.

Em 3 de Dezembro ignorava-se o paradeiro de um tenente de artilharia, um dos adjuntos do comandante do 2.º Grupo de Montanha; foi então enviado a parlamentar com os alemães, e com o fim de saber onde o dito oficial se encontrava, bem como outro pessoal desaparecido, um dos capitães ajudantes do comandante da expedição o qual se fazia acompanhar do interprete de alemão. O automóvel em que regressavam, depois de se terem desempenhado da missão, foi assaltado pelos alemães no dia 7 de Dezembro no nosso posto de Matchemba, por ele terem julgado que estava ocupado pelos portugueses, tendo referido capitão sido aí morto.

Colecção particular
 Entretanto começara a época das chuvas, impedindo a continuação das operações, e a 21 de Março de 1917, depois de o governador de Moçambique ter vindo ao norte, onde chegou a assumir o comando-em-chefe das forças portuguesas ali em operações, mudou-se a base das operações para Mocímboa da Praia onde as unidades da nova expedição de 1917 desembarcariam.

A 14 de Abril foi transferido o Quartel General para Mocímboa da Praia, onde só existia um pequeno e depauperado núcleo da expedição de 1916.

Se consultarmos as estatísticas oficiais da expedição durante o período de que estamos a tratar, sabemos, sem incluir a artilharia da expedição de 1915, que as perdas totais sofridas pelas unidades de artilharia expedicionária, durante o referido período, foram:

- Em Pessoal (mortos, feridos, prisioneiros e desaparecidos ou
  incapazes por doença), cerca de 60% dos oficiais e 80%
 das praças.

- Em gado: quase todo quanto lhes fora destinado foi dizimado pela
  mosca tsé-tsé ou "horse-sickness".

- Em material: as perdas não só de uma bateria de artilharia de
  montanha T.R., mas ainda 30% do armamento e muitas munições.

De um modo geral são estas as impressões colhidas que procuram traduzir imparcialmente e sem críticas, o que os nossos militares de Artilharia de Montanha operaram durante a 1.ª Grande Guerra no norte de Moçambique. 

Notas:
a) Este trabalho, feito pelo signatário, foi publicado no Jornal do Exército N.º 218 de Março de 1978


Texto e ilustrações: marr

sábado, 21 de maio de 2011

EXPEDICIONÁRIOS PARA ÁFRICA

EMBLEMAS E DISTINTIVOS


EMBLEMAS

PRAÇAS
Nas golas do dólmen de serviço aplicavam-se os emblemas ou números que eram confeccionados em pano, previamente cosidos num pequeno pedaço de pano de mescla cinzenta.


ENGENHARIA

TODAS AS ESPECIALIDADES
Um castelo de pano preto



ARTILHARIA
Uma granada de pano vermelho








COMPANHIAS DE SAÚDE
Uma cruz em pano vermelho














GRUPOS DE METRALHADORAS
Duas metralhadoras cruzadas em pano preto


NÚMEROS
Confeccionados em pano vermelho para a cavalaria, preto para a Infantaria e azul claro para a Administração Militar



DISTINTIVOS


Os distintivos de especialidade colocavam-se, para todos os postos, do seguinte modo:

- DÓLMEN DE SERVIÇO: nas platinas, assente em passadeiras de pano azul ferrete, devendo usar-se na platina do lado direito o distintivo que no casaco ou primeiro dólmen se coloca na manga direita; na platina esquerda  o que destes artigos se usa na manga esquerda ou nas duas se for esse o caso.

Estes distintivos são de metal colocando-se entre o ombro e a divisa ou galão.

- CAPOTE (serviço apeado): conforme a especialidade.

- CAPOTE (serviço  montado):nas presilhas colocadas na gola, sendo estes distintivos bordados ou em metal.


ARTILHARIA

Duas peças cruzadas









APONTADOR DE 1.ª CLASSE
Um emblema em cada platina


APONTADOR DE 2.ª CLASSE
Um emblema na platina do lado direito








INFANTARIA
Duas espingardas cruzadas










ATIRADOR  ESPECIAL
O emblema coloca-se nas duas platinas


ATIRADOR DE 1.ª CLASSE
Um emblema na platina direita









Estas duas especialidades utilizavam os distintivos, no capote de serviço apeado, logo por baixo do ombro, dentro do terço da distância que vai deste ao cotovelo.


CHEFE DE GRUPO
Um galão de lá vermelha com 1,2 cm de largura, na manga direita do capote, disposto em diagonal desde a altura do cotovelo até à junção da costura anterior da manga e em disposição semelhante na platina do ombro direito do dólmen de serviço.



DIVERSOS

CONTRAMESTRE DE CORNETEIRO
Uma trompa bordada a ouro, colocado na platina direita

SAPADOR
Dois machados cruzados em pano vermelho, colocados nos dois lados, nas platinas














ARTÍFICE
Dois martelos cruzados em pano vermelho, colocam-se nas duas platinas

FERRADOR
Uma ferradura em pano vermelho, nas duas platinas













 
TELEGRAFISTAS
 DA
 COMPANHIA DE ESPECIALISTAS
Um poste telegráfico em pano vermelho colocado nas duas platinas e por debaixo das divisas













 
OFICIAIS DO QUADRO
 DO
 SERVIÇO DO ESTADO-MAIOR
Braçal de pano, colocado no braço direito, sendo metade verde e a outra vermelho, tendo no meio bordado a ouro, a esfera armilar com o escudo nacional, ficando a parte vermelha por cima


OFICIAIS AO SERVIÇO DO ESTADO-MAIOR
O mesmo braçal, mas colocado no braço esquerdo


AJUDANTES DO REGIMENTO
Braçal azul claro, tendo bordado o número do regimento, coloca-se no braço esquerdo

Texto e ilustrações: marr

sexta-feira, 6 de maio de 2011

ANGOLA - MARCHA PARA NAULILA 1914

ANGOLA
DEZEMBRO DE 1914

(...)Depois do incidente de Naulila foi dada ordem de marcha imediata, Dezembro de 1914, ao Batalhão de Infantaria n.º 14 (que estacionava no Lubango) , para o sul, em marchas forçadas num percurso de 400 quilómetros, sem postos de etapas preparados, sem água, sem carros para transportes de víveres (...)





Colecção particular


(...) Os poços que se encontravam abertos pelos gentio, estavam secos. Num relatório oficial de subsistências, lê-se: "em todos os pontos do itinerário da marcha, nada havia e a ausência de recursos fazia supor que até se ignorava ou, pelo menos, fingia ignorar-se a marcha do destacamento (...)




O percurso foi doloroso
Colecção particular
  (...) Do Lubango marchámos para a fronteira sul da província, pelo seguinte itinerário: Lubango, Chibia,Chaungo, Quiita, Rio de Areia, Cambos, Tchiapepe, Chicua, Ediva, Tchicusse, Tchipelongo, Bela-Bela, Catequero, Humbe, Forte Roçadas, Dangoêna e Naulila (...)

(...) O percurso foi doloroso. Não foi a marcha diária de 25 a 30 quilómetros, numa extensão de mais de 400, sobre caminhos arenosos, a pé, equipados com toda a indumentaria da infantaria, reforçada com 100 cartuchos, foi a sede, a horrível sede que nos fazia inchar a língua, provocando uma péssima respiração,e ainda por cima disto, uma poeira de brasa, que escaldava a garganta, prejudicava os pulmões e cansava o coração (...)






Bebeu-se, bebeu-se...
Colecção particular
 
(...) Para atenuar, em parte, estes males, faziam-se as marchas de manhã cedo e de tarde. Uma noite, bivacámos junto de uma lagoa, de água represada pelas chuvas. Ao vermos a tonalidade da água à noite e a sua limpidez, despertou-nos o desejo ardente de saltar lá para dentro e beber, beber, até fartar. Foi o que se fez...Bebeu-se, bebeu-se e encheram-se os cantis e os sacos de lona. No dia seguinte a marcha continuou, e a subir, serpenteando a encosta e olhando lá para trás, lá estava a lagoa e, dentro dela, viam-se da sua transparência, cadáveres de dois pretos, de bois e outros animais. Um estremecimento correu-nos a espinal-medula, mas ninguém deitou a água fora...ninguém falou mais nisso...e a marcha continuou, continuou sempre. Era o medo pavoroso da sede (...)




(...) Ao chegarmos a Tchipelongo (antiga missão) existia ainda um forno velho, onde o pessoal da missão cozia, em tempos, o seu pão (...) O comandante do batalhão, resolveu dar-nos pão fresco (pois comíamos, durante a marcha, bolacha que tinha sobejado da expedição do Cuamato em 1907). A secção de quartéis preparou a massa, aqueceu-se o forno e enfornou-se o pão (...) Estava a massa meia crua, meio cozida, abate o forno em cima e...continuamos a comer bolacha, sempre bolacha que para ser mastigada era preciso demolhá-la primeiro, depois de bater uns bocados contra os outros, para caírem uns bichinhos pretos que nasciam no seu interior (...)


 

socorridos na ambulância...
Colecção particular

(...) Outra vez em plena marcha, começámos a ouvir um pronunciado zumbido parecido com o ruído de um avião ao longe. Ainda não tínhamos compreendido a causa, já estávamos a fugir da formatura, fazendo das mãos abano. O que era? Nada mais, nada menos do que um ataque de vespas, saídas do chão, dum enorme buraco que lhes servia de guarida (...) Quem faz uma pequena ideia, do que é um ataque de vespas enormes, enfurecidas, irrequietas e más, a vingarem-se de quem as queria espezinhar? (...) Só quem sofreu as suas picadas e teve de curar-se seriamente, pode avaliar o mal que causam. Camaradas houve que só passados dias deixaram de ter inchaços, e outros de ser socorridos na ambulância. Foi a irritação do ferrão das vespas que nos consumiu a paciência e a alma (...)

Colecção particular
(...) Houve muitos retardatários, devido à sede e ao mau caminho, arenoso, esburacado; mas a marcha dos Gambos para o sul, foi pior, foi penosíssima. Mas como era necessário chegar à fronteira primeiro que os alemães, chego-.se! E eles foram transportados em carros e a cavalo, quase com conforto! (...)

(...) O sol era quase vertical, a natureza estava numa quietude esmagadora e até as feras se escondiam à sombra...pendem, murchos, os ramos das árvores, e a coluna marcha, marcha sempre, marcha até encontrar água (...)

(...) Já tínhamos marchado mais de 300 quilómetros; o organismo sentia bem a falta de comodidade e a fraca alimentação, mas, principalmente, a falta de água, naquela atmosfera de brasas (...)

(...) Mas tudo tem um fim, e esta marcha terminou ao fim da tarde, num terreno de arbustos. Armaram-se as tendas, estendeu-se no chão a tenda o quarto pano e depois de uma sacudidela da areia embrenhada na farda, tudo se aprestou a descansar (...)

(...) às quatro horas da manhã do dia seguinte o corneteiro encarregou-se de acordar aquela gente toda (...) tudo se preparou e depois de tomado o café, mais uma etapa, mais quilómetros, mais poeira de areia escaldante, mais sede (...)


mais quilómetros, mais poeira de areia escaldante...
Colecção particular

(...) Mas, há sempre um mas, começamos a notar no corpo, mais no pescoço e na cabeça, umas picadelas estranhas...Que seria...que não seria? Verificamos que tínhamos o corpo cheio de carraças, mas umas carraças de gado bravo, que nos chupavam o sangue produziam um mal-estar enorme, criando uma sensação de perigo e nojo...e o resto da marcha passou-se numa ansiedade de chegar depressa, para nos revistarmos uns aos outros. Alguns camaradas até no cabelo e na barba tinham daqueles insectos parasitas, que foi necessário, com alfinetes e paus aguçados, tirá-los, um a um, deixando a pele a sangrar (...) Não tínhamos desinfectante para estas feridas, que embora insignificantes, receávamos alguma infecção devido ao suor, à poeira, à falta de higiene. Felizmente não houve nada (...)


No Forte Roçadas
colecção particular


No Forte Roçadas
Colecção particular














(...) Já perto do Humbe, começa o terreno a ser muito pantanoso. Do Humbe ao Cunene o clima é quente e húmido. Neste terreno pantanoso, que é coberto por triliões de mosquitos, região das mais insalubres de Angola, adoeci, fraquejaram-me as pernas, zumbiram-me os ouvidos, a cabeça andava-me à roda, num redopio constante de vertigem. Ardia de febre. Queria andar e não podia. Camaradas meus, levaram-me amparado, para não ficar abandonado no mato. Não era andar; era o arrastar penoso de um inválido. Assim marchei três dias(...)

(...) Ao terceiro dia à noite, no fim da marcha, não aguentei mais, caí, perdi os sentidos. Quando acordei, estava no Forte Roçadas, num barracão que servia de hospital de campanha (...)


Num barracão que servia de hospital...
Colecção particular


(...) No dia 14 de Dezembro de 1914, apresentei-me em Naulila. Pediram-me a alta do Hospital; respondi que a tinha perdido durante a marcha (...)


Naulila
Colecção particular

(...) No reconhecimento em que participei no dia 16 atravessamos o Cunene a vau por duas vezes, na perseguição de uma patrulha alemã que se suspeitava nas proximidades (...)

                                                Tenente Ernesto Moreira dos Santos
                                                                  "Memórias" 

Coorden. do texto e ilustrações:marr