sexta-feira, 6 de maio de 2011

ANGOLA - MARCHA PARA NAULILA 1914

ANGOLA
DEZEMBRO DE 1914

(...)Depois do incidente de Naulila foi dada ordem de marcha imediata, Dezembro de 1914, ao Batalhão de Infantaria n.º 14 (que estacionava no Lubango) , para o sul, em marchas forçadas num percurso de 400 quilómetros, sem postos de etapas preparados, sem água, sem carros para transportes de víveres (...)





Colecção particular


(...) Os poços que se encontravam abertos pelos gentio, estavam secos. Num relatório oficial de subsistências, lê-se: "em todos os pontos do itinerário da marcha, nada havia e a ausência de recursos fazia supor que até se ignorava ou, pelo menos, fingia ignorar-se a marcha do destacamento (...)




O percurso foi doloroso
Colecção particular
  (...) Do Lubango marchámos para a fronteira sul da província, pelo seguinte itinerário: Lubango, Chibia,Chaungo, Quiita, Rio de Areia, Cambos, Tchiapepe, Chicua, Ediva, Tchicusse, Tchipelongo, Bela-Bela, Catequero, Humbe, Forte Roçadas, Dangoêna e Naulila (...)

(...) O percurso foi doloroso. Não foi a marcha diária de 25 a 30 quilómetros, numa extensão de mais de 400, sobre caminhos arenosos, a pé, equipados com toda a indumentaria da infantaria, reforçada com 100 cartuchos, foi a sede, a horrível sede que nos fazia inchar a língua, provocando uma péssima respiração,e ainda por cima disto, uma poeira de brasa, que escaldava a garganta, prejudicava os pulmões e cansava o coração (...)






Bebeu-se, bebeu-se...
Colecção particular
 
(...) Para atenuar, em parte, estes males, faziam-se as marchas de manhã cedo e de tarde. Uma noite, bivacámos junto de uma lagoa, de água represada pelas chuvas. Ao vermos a tonalidade da água à noite e a sua limpidez, despertou-nos o desejo ardente de saltar lá para dentro e beber, beber, até fartar. Foi o que se fez...Bebeu-se, bebeu-se e encheram-se os cantis e os sacos de lona. No dia seguinte a marcha continuou, e a subir, serpenteando a encosta e olhando lá para trás, lá estava a lagoa e, dentro dela, viam-se da sua transparência, cadáveres de dois pretos, de bois e outros animais. Um estremecimento correu-nos a espinal-medula, mas ninguém deitou a água fora...ninguém falou mais nisso...e a marcha continuou, continuou sempre. Era o medo pavoroso da sede (...)




(...) Ao chegarmos a Tchipelongo (antiga missão) existia ainda um forno velho, onde o pessoal da missão cozia, em tempos, o seu pão (...) O comandante do batalhão, resolveu dar-nos pão fresco (pois comíamos, durante a marcha, bolacha que tinha sobejado da expedição do Cuamato em 1907). A secção de quartéis preparou a massa, aqueceu-se o forno e enfornou-se o pão (...) Estava a massa meia crua, meio cozida, abate o forno em cima e...continuamos a comer bolacha, sempre bolacha que para ser mastigada era preciso demolhá-la primeiro, depois de bater uns bocados contra os outros, para caírem uns bichinhos pretos que nasciam no seu interior (...)


 

socorridos na ambulância...
Colecção particular

(...) Outra vez em plena marcha, começámos a ouvir um pronunciado zumbido parecido com o ruído de um avião ao longe. Ainda não tínhamos compreendido a causa, já estávamos a fugir da formatura, fazendo das mãos abano. O que era? Nada mais, nada menos do que um ataque de vespas, saídas do chão, dum enorme buraco que lhes servia de guarida (...) Quem faz uma pequena ideia, do que é um ataque de vespas enormes, enfurecidas, irrequietas e más, a vingarem-se de quem as queria espezinhar? (...) Só quem sofreu as suas picadas e teve de curar-se seriamente, pode avaliar o mal que causam. Camaradas houve que só passados dias deixaram de ter inchaços, e outros de ser socorridos na ambulância. Foi a irritação do ferrão das vespas que nos consumiu a paciência e a alma (...)

Colecção particular
(...) Houve muitos retardatários, devido à sede e ao mau caminho, arenoso, esburacado; mas a marcha dos Gambos para o sul, foi pior, foi penosíssima. Mas como era necessário chegar à fronteira primeiro que os alemães, chego-.se! E eles foram transportados em carros e a cavalo, quase com conforto! (...)

(...) O sol era quase vertical, a natureza estava numa quietude esmagadora e até as feras se escondiam à sombra...pendem, murchos, os ramos das árvores, e a coluna marcha, marcha sempre, marcha até encontrar água (...)

(...) Já tínhamos marchado mais de 300 quilómetros; o organismo sentia bem a falta de comodidade e a fraca alimentação, mas, principalmente, a falta de água, naquela atmosfera de brasas (...)

(...) Mas tudo tem um fim, e esta marcha terminou ao fim da tarde, num terreno de arbustos. Armaram-se as tendas, estendeu-se no chão a tenda o quarto pano e depois de uma sacudidela da areia embrenhada na farda, tudo se aprestou a descansar (...)

(...) às quatro horas da manhã do dia seguinte o corneteiro encarregou-se de acordar aquela gente toda (...) tudo se preparou e depois de tomado o café, mais uma etapa, mais quilómetros, mais poeira de areia escaldante, mais sede (...)


mais quilómetros, mais poeira de areia escaldante...
Colecção particular

(...) Mas, há sempre um mas, começamos a notar no corpo, mais no pescoço e na cabeça, umas picadelas estranhas...Que seria...que não seria? Verificamos que tínhamos o corpo cheio de carraças, mas umas carraças de gado bravo, que nos chupavam o sangue produziam um mal-estar enorme, criando uma sensação de perigo e nojo...e o resto da marcha passou-se numa ansiedade de chegar depressa, para nos revistarmos uns aos outros. Alguns camaradas até no cabelo e na barba tinham daqueles insectos parasitas, que foi necessário, com alfinetes e paus aguçados, tirá-los, um a um, deixando a pele a sangrar (...) Não tínhamos desinfectante para estas feridas, que embora insignificantes, receávamos alguma infecção devido ao suor, à poeira, à falta de higiene. Felizmente não houve nada (...)


No Forte Roçadas
colecção particular


No Forte Roçadas
Colecção particular














(...) Já perto do Humbe, começa o terreno a ser muito pantanoso. Do Humbe ao Cunene o clima é quente e húmido. Neste terreno pantanoso, que é coberto por triliões de mosquitos, região das mais insalubres de Angola, adoeci, fraquejaram-me as pernas, zumbiram-me os ouvidos, a cabeça andava-me à roda, num redopio constante de vertigem. Ardia de febre. Queria andar e não podia. Camaradas meus, levaram-me amparado, para não ficar abandonado no mato. Não era andar; era o arrastar penoso de um inválido. Assim marchei três dias(...)

(...) Ao terceiro dia à noite, no fim da marcha, não aguentei mais, caí, perdi os sentidos. Quando acordei, estava no Forte Roçadas, num barracão que servia de hospital de campanha (...)


Num barracão que servia de hospital...
Colecção particular


(...) No dia 14 de Dezembro de 1914, apresentei-me em Naulila. Pediram-me a alta do Hospital; respondi que a tinha perdido durante a marcha (...)


Naulila
Colecção particular

(...) No reconhecimento em que participei no dia 16 atravessamos o Cunene a vau por duas vezes, na perseguição de uma patrulha alemã que se suspeitava nas proximidades (...)

                                                Tenente Ernesto Moreira dos Santos
                                                                  "Memórias" 

Coorden. do texto e ilustrações:marr

domingo, 24 de abril de 2011

EXPEDICIONÁRIOS PARA ÁFRICA

GRAUS HIERÁRQUICOS

Os diversos distintivos, de posto de classe, aplicavam-se do seguinte modo:

DÓLMEN DE SERVIÇO: (para todos) enfiam-se nas platinas, sendo as passadeiras onde assentam as divisas ou os galões de pano
azul ferrete.

CAPOTE PARA SERVIÇO APEADO: assentes em pano azul ferrete. Os galões (para oficiais) colocam-se por baixo dos vivos dos
canhões das mangas. Para Sargentos e Praças, as divisas colocam-se
nas mangas, acima do cotovelo e a meia distância entre este e o ombro.

CAPOTES PARA SERVIÇO MONTADO: para todos os postos os galões ou divisas assentam nas presilhas de pano azul ferrete que se colocam nas golas.


PRAÇAS

UNIFORME DE SERVIÇO
 (nas passadeiras)


SEGUNDO-CABO
Uma divisa de lã vermelha com 1,2cm de largura




PRIMEIRO-CABO
Duas divisas de lã vermelha com 1,2 cm, distanciadas entre si 4mm




CAPOTE PARA TROPAS APEADAS
(nas mangas)



SEGUNDO-CABO
Uma divisa vermelha de formato angular

PRIMEIRO-CABO
Duas divisas vermelhas de formato angular






Colecção particular



CAPOTE PARA TROPAS MONTADAS
(nas presilhas)


SEGUNDO-CABO
Uma divisa vermelha








PRIMEIRO-CABO
Duas divisas vermelhas









SARGENTOS

UNIFORME DE SERVIÇO
(nas passadeiras)

SEGUNDO-SARGENTO
Três divisas de seda vermelha com 1,2cm de largura, cada




PRIMEIRO-SARGENTO
Quatro divisas de seda vermelha com 1,2cm de largura, cada












CAPOTE PARA TROPAS APEADAS
(nas mangas)
SEGUNDO-SARGENTO
Três divisas douradas de formato angular




















PRIMEIRO-SARGENTO
Quatro divisas douradas de formato angular

















CAPOTE PARA TROPAS MONTADAS
(nas presilhas)



SEGUNDO-SARGENTO
Três divisas de seda vermelha









PRIMEIRO-SARGENTO
Quatro divisas de seda vermelha













SARGENTOS-AJUDANTES
Um emblema bordado a ouro ou de metal dourado, colocando-se do seguinte modo:


UNIFORME DE SERVIÇO: nas platinas
CAPOTE PARA SERVIÇO APEADO: um pouco acima dos canhões das mangas
CAPOTE PARA SERVIÇO MONTADO: nas presilhas colocadas na gola


OFICIAIS

Os galões aplicam-se do seguinte modo:

UNIFORME DE SERVIÇO: nas passadeiras que se enfiam nas
platinas.
Colecção particular


CAPOTE PARA SERVIÇO APEADO: nas mangas, por baixo
dos vivos dos canhões


CAPOTE PARA SERVIÇO MONTADO: nas presilhas que se
fixam nas golas.
Colecção particular












 
ALFERES
Um galão de ouro com 1cm de largura

TENENTE
Dois galões de ouro com 1cm de largura, cada um, distanciados entre si 2mm

CAPITÃO
Três galões de ouro com 1cm de largura, cada um, distanciados entre si 2mm

MAJOR
Um galão de ouro com 2cm de largura e à distancia de 4mm, mais um com 1cm de largura, distanciados entre si 2mm

TENENTE-CORONEL
Um galão de ouro com 2cm de largura e à distancia de 4mm mais dois com 1 cm de largura, cada um, distanciados entre si 2mm

CORONEL
Um galão de ouro com 2cm de largura e à distância de 4mm, mais três com 1cm de largura, cada um, distanciados entre si 2mm







Galão de 2cm


Galão de 1cm




GENERAIS

Os distintivos de General são estrelas de prata, colocam-se do modo seguinte:
UNIFORME DE SERVIÇO: três estrelas de prata de cada lado da gola.
As passadeiras que se colocam nas platinas são de pano encarnado e sobre elas são assentes os galões de ouro, iguais aos das mangas do Primeiro Dólmen, os galões são colocados a 3mm de distancia uns dos outros.





Embora esta passadeira com os galões fosse da ordem, raramente se vêm fotografias de generais com elas colocadas, optando estes oficiais por utilizarem apenas as estrelas na gola.

CAPOTE PARA SERVIÇO APEADO: um pouco acima dos canhões das mangas

CAPOTE PARA SERVIÇO MONTADO: assentes em presilhas vermelhas que são fixas na gola

Texto e ilustrações:marr







terça-feira, 5 de abril de 2011

MOÇAMBIQUE E "A EPOPEIA MALDITA"

AFIRMAÇÕES
 DO
GENERAL GOMES DA COSTA
ACERCA DO LIVRO
"EPOPEIA MALDITA"
ESCRITA POR ANTÓNIO DA CÉRTIMA

(...)  Dizia Stendhal, que a arte de mentir se aperfeiçoara muito no seu tempo; que diria ele se hoje aparecesse nesta nossa boa terra de Portugal? Porque, mentir, passou a ser uma necessidade entre nós, desde que se criaram as clientelas para apoio de um chefe que lhes  dê de comer. A mentira adopta, agora, formas vagas, genéricas, vesgas, imprecisas, difíceis de incriminar e, sobretudo, de refutar (...)


General Gomes da Costa em França
Colecção particular

(...) Todos fingem pretender que só se diga a verdade, mas quando alguém de coragem a revela, todos lhe saltam em cima, injuriando-o, abafando-o, repelindo-o. Numa Nação de iletrados, onde a opinião pública é representada por dois ou três jornais politicos, a Verdade anda escondida pelos cantos, e só muito tarde se resolve aparecer (...)

(...) Quando algum fracasso ocorre, não hesitam em atirar com as culpas para cima dos outros; e é este o caso da guerra, e particularmente da guerra de África, em que se procuram atribuir culpas do tremendo desastre aos pobres dos soldados e aos graduados inferiores. Cheia de verdade é "A EPOPEIA MALDITA", e por isso mesmo tem esse livro raro valor. A miséria que descreve, escritor algum seria capaz de as inventar (...)


(...) O que se passa em África foi o mesmo que se passou em França, apenas com a diferença de nesta se não sentirem privações - graças à administração britânica; porque se estivessemos entregues a nós mesmos, a catástrofe teria sido horrorosa (...)

Atravessar o Rovuma
Colecção particular
(...) Em África, vemos os chefes e a sua claque, na base, comendo, bebendo, passeando, gozando, estendidos nas preguiceiras de verga, abanados pelos moleques, tomando limonadas ou "whisky and soda" bem gelados; o resto, a canalha, os párias - rotos e sujos, debaixo dum sol de inferno, sem pão, sem água, sem medicamentos, atolados nos lodos do Rovuma, trocando tiros com o inimigo pela honra de uma Pátria cujos destinos estavam nas mãos de inconscientes, ou ignorantes, ou perversos (...)


(...) Mas no fim, ao terminar a guerra, aparecem, numa evidência balofa, os videirinhos, assaltando os lugares de rendimento, reforçando as clientelas dos deuses de ocasião, cobrindo-se uns aos outros de condecorações e afastando os que poderiam incomodá-los, caluniá-los,e, entre estes, até os pobres mutilados, que eles só aproveitam para os explorar em exibições públicas, colocando-os à sua frente (...)


(...) O livro "A EPOPEIA MALDITA" é a reacção salutar contra a mentira de África, é um livro de coragem absoluta, é um livro de Verdade! Porque, os que, como eu, viram em Mocímboa da Praia, ao terminar a guerra, as montanhas de pneus, os centos de automóveis, os rios de águas minerais e de vinho, as máquinas de toda a espécie, algumas das quais nem tinham quem delas se soubessem servir; os refrigeradores, as toneladas de víveres que, estragados pelo tempo, tiveram de ser atirados ao mar, indo envenenar o peixe da baía; as cruzes de pau dos cemitérios, abandonados, dos nossos soldados; quem viu tudo isto, é que pode compreender bem o que é "A EPOPEIA MALDITA", e revoltar-se contra a inépcia, incapacidade, incúria, desleixo, estupidez e desumanidade dos que, com os meios de acção mais poderosos que nenhuma outra expedição portuguesa teve em África, deixaram devastar e destroçar à fome e à sede, esses pobres soldados de Portugal! (...)

Artilharia de montanha
Colecção particular

(...) Mentira! Tudo Mentira! Ninguém quer a Verdade, porque  a Verdade, como a luz, ofusca essas aves sinistras que se governam a si, fingindo governar a Nação. Políticos da força dos básicos de Mocimboa da Praia, comendo e bebendo em repetidos banquetes, sem que lhes perturbe as digestões a lembrança dos que a esta hora dormem nos cemitérios de França e de África, vítimas da sua incapacidade e da eterna falta de preparação do exército (...)


(...) Mentira só possível num País onde o Povo, bestializado por uma secular vida de submissão, consente que o crucifiquem sem soltar, sequer um grito. É esta a lição que se tira da leitura deste livro soberbo de Verdade, escrito por quem viu e sentiu bem a guerra em todo o seu horror!(...)


Gomes da Costa
      General


Coorden. do texto: marr