terça-feira, 1 de março de 2011

EXPEDICIONÁRIOS PARA ÁFRICA - UNIFORMES

FORÇAS EXPEDICIONÁRIAS
 PARA ANGOLA E MOÇAMBIQUE
21 DE AGOSTO DE 1914

UNIFORMES
Iremos analisar o que as nossas tropas expedicionárias utilizaram a partir da data da mobilização, isto é de 21 de Agosto de 1914. No entanto não deixaremos de citar todos os outros que se poderiam ver nas nossas tropas, na medida em que se utilizavam conjuntamente com o Plano em uso, diversos componentes de outros anteriores, assim como o equipamento e o armamento.

UNIFORME DE CAMPANHA
PRAÇAS E SARGENTOS DAS DIVERSAS
 ARMAS E SERVIÇOS


CHAPÉU-CAPACETE





De feltro, em mescla cinzenta, gomado. A cimeira, em bico, é de cobre oxidado e roscado no ventilador. Na frente tem um laço Nacional de couro envernizado a vermelho e verde, ficando esta última cor ao centro.



 

















Militares de Cavalaria N.º 10. Observe o chapéu-capacete
com a cimeira em bico. Colecção particular

Em 1914 e principalmente a partir de 1917 foi distribuído uma cobertura de cabeça, idêntica à anterior, mas com um ventilador diferente, sem bico.


Expedicionários a bordo. Observe o chapéu-capacete
com o ventilador semi-esférico. In: Ilustração Portuguesa.
  Colecção particular


DÓLMEN DE SERVIÇO
De cotim de algodão cinzento, tendo uma algibeira de cada lado da altura do peito, com fijolas nas partes laterais, abotoando verticalmente, ao meio do peito, por seis botões de unha pretos, cobertos por uma pestana. A gola fecha por intermédio de dois colchetes. As mangas não têm canhões.
As algibeiras são cobertas por uma pestana, que abotoam com botões pequenos cosidos às mesmas. As platinas são do mesmo tecido, do dólmen, direitas e prendem, por intermédio de botões pequenos.
Na altura da cintura e na direcção ao quadril tem, de um e do outro lado, uma presilha com a mesma forma e largura das platinas.
Soldados de Portugal a caminho de África
Colecção particular


 

CALÇAS

De cotim de algodão cinzento, com duas algibeiras abertas horizontalmente nas folhas anteriores, O comprimento das calças das tropas apeadas deve ser regulado de modo que a orla inferior diste três centímetros do solo, quando se tome a posição de sentido.
As praças montadas utilizarão a calça mais comprida de modo que a orla assente bem na pua da espora.

CAPOTE
TROPAS APEADAS



De mescla cinzento com duas abotoaduras, cada uma de seis botões grandes de metal amarelo igualmente espaçados e colocados no sentido da altura.

As duas folhas da frente e a das costas são cortadas de uma só peça, e nas costas, a partir da orla inferior, tem, a meio da roda, uma abertura longitudinal, acompanhada de uma pestana interior, tendo três botões pequenos de metal amarelo. Nas costuras da ligação das costas com as folhas da frente têm duas pestanas que dão entrada a duas algibeiras colocadas interiormente. Junto às pestanas e na altura da cintura, tem as presilhas destinadas a dar passagem ao cinturão, com a mesma forma e largura das platinas.

A gola é de mescla e de voltar, apertando por meio de um colchete, nos extremos da mesma aplicam-se os emblemas respectivos.

As platinas têm o mesmo feitio das dos dólmanes de serviço.

As mangas devem ser suficientemente largas para que permitam vestir o capote com facilidade e, o seu comprimento deverá ser tal que o militar, tendo os braços estendidos naturalmente, o extremo da manga chegue à ligação da mão com o antebraço.


O comprimento do capote deve ser regulado para que a orla inferior diste trinta centímetros do solo.


Capotes para tropas apeadas.
In: Ilustração Portuguesa. Colecção particular


CAPOTE
TROPAS MONTADAS
De mescla cinzenta, tendo as folhas da frente e das costas cortadas de uma só peça. As presilhas são da mesma mescla, bem como a gola que é de voltar tendo os cantos ligeiramente arredondados e aperta por meio de um colchete. Nos extremos aplicam-se os respectivos emblemas.

Pela parte exterior e na altura do segundo botão do guarda-mangas tem uma algibeira que fecha por meio de uma pestana com um botão.  Na frente, assim como no guarda-mangas, tem quatro botões grande de metal amarelo iguais aos do capote para as tropas apeadas.

O comprimento do cabeção deve ser tal que a orla fique equidistante do ombro ao cotovelo Nas costas, a partir da orla inferior, tem, a meio da roda, uma abertura longitudinal, acompanhada por uma pestana interior que tem quatro botões pequenos de metal amarelo

O comprimento do capote deve ser regulado para que a orla inferior diste vinte centímetros do solo

GREVAS
TROPAS APEADAS
De mescla impermeável, com dois metros de comprimento e doze centímetros de largura, não devendo cada par pesar mais de trezentas gramas. Numa das extremidades, que terminará em ponta, terá cosido uma fita de lã, da mesma cor, com um metro de comprimento e um centímetro de largura. Colocam-se conforme se vê no modelo.


Soldado de Infantaria
Fotografia  Colecção particular


BOTAS
De cabedal, untadas, com sola dobrada, tacão de meia prateleira e tacheadas.



             






As botas para as tropas apeadas são da cor natural do couro, para as montadas são pretas.


POLAINAS
TROPAS MONTADAS
De atanado (couro curtido) preto

Soldado de Cavalaria
Fotografia. Colecção particular



ESPORAS
De ferro com correia preta



Maqueiro
Fotografia. Colecção particular
Texto e ilustrações de: marr



sábado, 19 de fevereiro de 2011

ORGANIZAÇÃO E OBJECTIVOS

AS PRIMEIRAS EXPEDIÇÕES

Em 18 de Agosto de 1914 tendo sido declarada a Grande Guerra, o governo português, entendeu que dada as circunstâncias pouco normais do momento, era necessário guarnecer e reforçar diversos postos de fronteira no norte de Moçambique e no sul de Angola, para o que deu ordens que se organizassem duas colunas expedicionárias.


Grupo de sargentos expedicionários
In: Ilustração Portuguesa. Colecção particular

 Uma semana depois da declaração de guerra e apesar de Portugal ser neutral, os alemães atacaram o posto português de Maziú no norte de Moçambique, tendo sido mortos alguns soldados da respectiva guarnição, entre eles, o sargento comandante do posto.

Neste sentido pela publicação na Ordem do Exército n.º 19 de 21 de Agosto de 1914, foram colocados à disposição do Ministério das Colónias dois destacamentos mistos, um destinado a Angola e o outro a Moçambique.
O desfile das tropas expedicionárias pela Avenida da Liberdade
Colecção particular

ANGOLA

OBJECTIVOS
Enviaram-se duas expedições: Operações no Sul em 1914, comandada pelo Tenente-Coronel do Estado-Maior Alves Roçadas, Governador do Distrito de Huíla; e a Campanha do Sul de 1915, comandada pelo General António Júlio Pereira de Eça.

Além destas duas grandes campanhas ainda houve outras de menor importância contra algumas rebeliões autóctones instigadas pelos alemães contra a administração portuguesa.


A primeira expedição teve como objectivo assegurar a ordem pública e a integridade da colónia, ocupando-se toda a região além Cunene. E a oposição ao avanço de forças estrangeiras no nosso território, organizou-se uma coluna que se concentrou em Huíla com a intenção de executar a ocupação da Cuanhama, contudo esse objectivo foi alterado devido aos incidentes de Naulila e Cuangar, assim as tropas tiveram que se dirigir para a fronteira sul a fim de guarnecer a linha Naulila - Donguena.


Oficias e enfermeiros da  Cruz Vermelha que foram para Angola
Colecção particular
A segunda expedição teve novamente como objectivo o sul, para fazer face a uma nova investida alemã, mas também para pacificar as regiões sublevadas, tendo sido as principais operações, entre outras, os 1.º, 2.º e 3.º combates de Mongua, a marcha para a conquista das Cacimbas de Mongua, o ataque e ocupação da Embala de N'Giva, o combate da Chana de Inhoca, a reocupação do forte do Cuamato, etc.


Os últimos "adeus" dos expedicionários
In: Ilustração Portuguesa Colecção particular

ORGANIZAÇÃO

OPERAÇÕES NO SUL DE ANGOLA EM 1914
-  Quartel-General
-  3.º Batalhão do Regimento de Infantaria n.º 14
-  3.º Esquadrão do Regimento de Cavalaria n.º 9
-  2.ª Bateria do Regimento de Artilharia de Montanha
-  2.º Bateria do 1.º Grupo de Metralhadoras
-  1.º Grupo de Companhias de Saúde (1)
-  1.º Grupo de Companhias de Administração Militar (1)

(1) Forneceriam respectivamente as praças dos serviços de saúde e administrativos necessários.


AUMENTO DE EFECTIVOS:
Pela Ordem do Exército n.º 20 de 24 de Agosto de 1914, foi publicado o Decreto que aumentou o efectivo do destacamento:
-  Quartel-General
-  Regimento de Sapadores Mineiros
-  Batalhão de Telegrafistas de Campanha
-  1.º Grupo de Tropas de Administração Militar (2)
-  1.º Grupo de Metralhadoras, 2.ª Bateria.

(2) Equipagens e subsistência

Mais um envio de tropas para Angola, juntando-se à coluna do
 Coronel Roçadas
Foto de uma revista da época  Colecção particular

CAMPANHA DO SUL DE ANGOLA EM 1915

1.º REFORÇO:
-   1.ª Bateria do Regimento de Artilharia de Montanha
-   3.ª Bateria do Regimento de Artilharia de Montanha
-   3.º Esquadrão do Regimento de Cavalaria N.º 11
-   3.º Batalhão do Regimento de Infantaria n.º16
-   3.º Batalhão do Regimento de Infantaria N.º 17
-   2.ª Bateria do 2.º Grupo de Metralhadoras
-   2.ª Bateria do 3.º Grupo de Metralhadoras
-   3.º Grupo de Companhias de Saúde

As praças despedem-se das famílias que estão no cais...
In. Ilustração Portuguesa Colecção particular

2.º REFORÇO:
-   8.ª Bateria de Artilharia n.º 1
-   8.ª Bateria de Artilharia n.º 2
-   6.ª Bateria de Artilharia n.º 3
-   5.ª Bateria de Artilharia n.º 7
-   5.ª Bateria de Artilharia n.º 8
-   3.º Esquadrão de Cavalaria n.º 3
-   3.º Esquadrão de Cavalaria n.º 4
-   3.º Batalhão de Infantaria n.º 18
-   3.º Batalhão de Infantaria n.º 19
-   11ª e 12ª Companhias de Infantaria n.º 20
-   1.ª Bateria do 1.º Grupo de Metralhadoras
-   1ª e outra (a organizar) Baterias do 2.º Grupo de Metralhadoras
-   1.ª Bateria do 3.º Grupo de Metralhadoras
-   2.ª Bateria do 6.º Grupo de Metralhadoras 


Grupo de expedicionários de Infantaria n.º 18 que partiram para Angola
In: Ilustração Portuguesa.  Colecção particular



MOÇAMBIQUE

OBJECTIVOS
Foram enviadas quatro expedições: a primeira em Outubro de 1914 que foi comandada pelo tenente-Coronel de Artilharia Pedro Massano de Amorim. Esta expedição não tinha um objectivo definido, limitando-se a colaborar com as forças locais, estabelecendo as comunicações e postos militares na margem sul do rio Rovuma, tendo desenvolvido especial actividade na construção de estradas e linhas telegráficas.


A segunda em Outubro de 1915, foi comandada pelo Major de Artilharia José Luís de Moura Mendes, teve como objectivo a ocupação de Quionga e dos territórios ao norte do rio Rovuma, e, seguidamente o ataque decisivo ao núcleo principal alemão de Tábora, em combinação com as forças inglesas com as quais se deveriam fazer a junção ao norte de Songea. Contudo só em parte é que se conseguiram atingir os objectivos propostos, principalmente a ocupação em 10 de Abril de 1916 de Quionga, que os alemães já tinham abandonado e que posteriormente foi também abandonado por nós.



Expedicionários divertindo-se a bordo de um navio
Colecção particular

Quanto à ocupação dos territórios ao norte do Rovuma tentada em conjugação com as forças de desembarque do cruzador Adamastor e a Canhoneira Chaimite, bem assim como outras unidades locais, não pode ser levada a efeito por as nossas forças terem sido violentamente hostilizadas pelos alemães quando tentavam atravessar o Rovuma, ficando assim prejudicado o projectado ataque a Tábora.



O Batalhão de Infantaria n.º 23 embarca com destino a Moçambique
In: Ilustração Portuguesa. Colecção particular
 A terceira, em Junho de 1916, dirigida pelo comandante General José César Ferreira Gil e a quarta, em 1917, comandada pelo Coronel de Cavalaria Tomás de Sousa Rosa. Para estas duas foi fixado um único objectivo, cooperação com as forças aliadas participando na campanha, o que se conseguiu, por terem atraído sobre si uma parcela das forças alemãs aliviando desta forma os ingleses e belgas, além de, na terceira expedição, ter-se chegado a ocupar Nevala, Manani, etc., ocupações estas que não se puderam manter.


O Batalhão do 24 de Infantaria a caminho do embarque
In: Ilustração Portuguesa.  Colecção particular




ORGANIZAÇÃO

PRIMEIRA EXPEDIÇÃO EM 1914:
-   4.ª Bateria de Artilharia de Montanha
-   4.º Esquadrão de Cavalaria n.º 10
-   3.º Batalhão de Infantaria n.º 15
-   Engenharia
-   Companhia de Saúde
-   Administração Militar

SEGUNDA EXPEDIÇÃO EM 1915:
-   5.ª Bateria de Artilharia de Montanha
-   4.º Esquadrão de Cavalaria n.º 3
-   2.ª Bateria do 7.º Grupo de Metralhadoras
-   3.º Batalhão de Infantaria n.º 21
-   Companhia de Engenharia
-   Companhia de Equipagens
-   Companhias de Subsistência
-   Companhia de Saúde


Colecção particular


TERCEIRA EXPEDIÇÃO EM 1916:
-   Companhia Mista de Engenharia
-   Secção de Telegrafistas Sem Fios
-   1.º Grupo de Artilharia (comando)
-   2.º Grupo de Artilharia (comando)
-   1.ª Bateria de Artilharia de Montanha
-   2.ª Bateria de Artilharia de Montanha
-   4.ª Bateria de Artilharia de Montanha
-   1.ª Bateria do 4.º Grupo de Metralhadoras
-   1.ª Bateria do 5.º Grupo de Metralhadoras
-   2.ª Bateria do 8.º Grupo de Metralhadoras
-   3.º Batalhão de Infantaria n.º 23
-   3.º Batalhão de Infantaria n.º 24
-   3.º Batalhão de Infantaria n.º 28
-   Companhias de Infantaria n.º 21 (duas)
-   Hospital Provisório
-   Ambulância
-   Padaria
-   Companhia de Automóveis

-   Serviço Veterinário

Forças militares aguardam o embarque rumo a Moçambique
Fotografia de colecção particular

 QUARTA EXPEDIÇÃO EM 1917:
-   Companhia de Engenharia
-   Baterias de Artilharia de Montanha (duas)
-   Baterias de metralhadoras (duas)
-   3.º Batalhão de Infantaria n.º 29
-   3. º Batalhão de Infantaria n.º 30
-   3.º Batalhão de Infantaria n.º 31
-   Um grupo de graduados para um esquadrão  e vinte companhias
     de indígenas de infantaria.
Texto de: marr



"Pela Pátria" - Poema de Esmeralda Santiago
Ilustração de Stuart Carvalhais
In: Ilustração Portuguesa n.º 456 de 16 de Novembro de 1914
Colecção particular







sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

PREÂMBULO - O FIM

E de volta à Pátria, como terá sido a recepção que estes heróis tiveram no cais de desembarque? Para melhor descrever esse regresso à Metrópole, após a missão cumprida, explica-nos o Dr. Pires de Lima que (...) a esperar-nos, ninguém, nem a Cruz Vermelha, na hipótese, infelizmente verdadeira, de trazermos doentes, que careciam de ser transportados em maca...recordei então as notícias, que tinha lido, da maneira como eram recebidos, com mimos e carinhos femininos,os feridos e doentes, que regressavam de França (...)

Tropa de África! Foto de 1918
(...) Profundamente chocado, mandei para o Quartel-General um telefonema seco: "estava ali o Quelimane com duzentos soldados doentes; alguns, que só poderiam desembarcar de maca, outros que vinham em trajes menores e, por isso, não poderiam desembarcar de dia" (...) Tempos depois, apareceu no cais, muito enfadado, um senhor alferes, que o Q.G. mandara, para tomar conta dos meus doentes. E nisto se resumiu a recepção oficial feita aos Expedicionários, que parece não terem cumprido integralmente o seu dever, pois, com teimosia inexplicável e digna de muita censura, se tinham obstinado em não morrer, longe da Pátria, para lhe poupar um espectáculo deselegante e perturbador de digestões felizes (...).
Dr. Pires de Lima



Felizmente ainda conheci pessoalmente um desses heróicos combatentes (resistentes), que com a idade de 18 anos foi como voluntário para Angola combater os alemães, infelizmente já nos deixou, faz uns bons pares de anos, e numa idade já centenária, refiro-me ao Coronel e Engenheiro Químico Manuel Aboim Ascensão de Sande Lemos que durante muitas horas me narrou alguns dos acontecimentos por ele vividos em África, testemunhos esses que me entusiasmaram a levar em frente o trabalho que aqui inicio.

Dedicando este modesto trabalho não só à sua memória, mas à de todos esses heróis esquecidos que tanto deram pela Pátria sem nada em troca pedirem...
                                                                                                                   
                      O Autor
           M. A. Ribeiro Rodrigues