Mostrar mensagens com a etiqueta África. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta África. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 19 de maio de 2014

NO 1.º CENTENÁRIO DA GRANDE GUERRA (1914-1918)

UMA PÁGINA ESQUECIDA 
DA 
GUERRA EM MOÇAMBIQUE


Como um furacão assolador, as vitoriosas tropas de von Lettow invadiram e talaram, na Primavera de 1918, todo o Norte de Moçambique, numa audaciosa investida sobre Quelimane.

Os nossos aliados sul-africanos, a pretexto de nos auxiliar, colaboravam na invasão, com a mais insolente arrogância, por onde quer que passassem, era o seu primeiro cuidado captarem a confiança indígena, para depois o indispor contra nós, minar pela base todo o nossos prestígio e soberania aos olhos crédulos das populações autóctones. Nessas “contradanças” de marchas e retiradas, duas companhias sul-africanas chegaram em fins de Junho a Nametil e acamparam perto. O Tenente Humberto de Ataíde, como comandante do posto e cumprindo directrizes recebidas, apresentou-se ao comandante da coluna e ficou às suas ordens.

O Tenente Humberto de Ataíde (à nossa esquerda) aquando em Angola com o
Alferes Aragão, heróico comandante dos Dragões em Naulila
(colecção particular)



Chegara-lhe, então, a sua hora da fatalidade! Colhido pelas engrenagens dessa tenebrosa máquina de cobiça e de traição política sul-africana, o pobre e ingénuo herói estava de antemão condenado a não mais se desenvencilhar dela, senão bem triturado, com o coração e a alma sangrando agonias.

As hostilidades entre o major sul-africano e o oficial português romperam daí a dias…Começou por uma nota em africânder, denunciando como suspeitos de entendimentos com o inimigo, todos ou quase todos os sipaios da guarnição do posto. Calando a sua revolta pelo grosseiro embuste, não tendo maneira de contrabater a infâmia, o Ataíde cedeu. Dadas as circunstâncias, as ordens recebidas, a natureza da suspeição, proceder de outro modo seria provocar desde logo o conflito de jurisdições que se lhe afigurava grave.

Consentiu, pois, em que fossem desarmados os seus soldados indígenas e ficou apenas com meia dúzia de sipaios, mal armados e um Sargento europeu.

Entretanto, havia informações de que os alemães avançavam por este Distrito, devendo forçosamente passar pelo posto de Nametil. Os sul-africanos comunicaram ao Tenente Ataíde que tomasse as suas precauções para a contingência duma vitória alemã no inevitável combate que se devia travar. Desnecessária advertência, pois que essa torpe milícia sul-africana até então para nada mais servia senão para ser periodicamente zupada e escarnecida pelos aguerridos askaris de von Lettow-Vorbeck! O Tenente Ataíde tomou pois as suas precauções que tão-somente consistiam em evitar que os armazéns do posto, abarrotados de víveres, viessem a cair nas mãos dos alemães vitoriosos.

Sipaios (colecção particular)


Dois dias depois, um intenso e longo tiroteio para os lados do bivaque sul-africano põe-no de sobreaviso. Devia ser o anunciado combate, Ataíde passou a noite ao relento, com a sua gente, e disposto a todas as eventualidades.

Acabado o tiroteio tratou logo de se informar, mas os sul-africanos tinham debandado, levantando o seu bivaque, sem deixar rasto, nem notícia. Dos alemães também não havia notícias. Para onde teriam ido? Ter-se-iam internado no mato, como era a sua táctica, para caírem de surpresa, pela madrugada, sobre o posto alemão? Nada se sabia…

Ignorante de tudo, desajudado de todos, sem soldados para defender o posto, nem elementos para apreciar a situação, então, a fim de evitar um mal maior, cumpriu as ordens anteriormente recebidas – por fogo aos armazéns!

Seguidamente, com a sua magra escolta, marchou ao acaso até encontrar esses tredos aliados. E o seu pasmo não conheceu limites, ao vir topá-los, muito tranquilos, bivacados no posto de Mùatúa, a algumas léguas à rectaguarda de Nametil.
- «Que não! Não tinha havido nada!», foi a insólita explicação que obteve. «O tiroteio que se ouvira, fora simples ensaio de metralhadoras. E que ele, Tenente Ataíde, não devia ter mandado incendiar os depósitos…».

Tão alarvemente posto em cheque, por essa reles tropa africânder, a sua honra de militar e de português, não lhe sofreu mais o ânimo ouvir-lhes as insolências. Só lhe restava uma solução – um inquérito, um concelho-de-guerra, a ilibação total! Nesse sentido remeteu logo um extenso relatório ao comandante militar português da região, o então Major José Cabral, seu devotado amigo e que mais tarde foi Governador-geral de Moçambique.

Não obteve resposta!

Tropa de África (colecção particular)


Debalde mandou segunda, terceira nota e nada! Por fim num telegrama angustioso, pedia urgentemente uma palavra, uma sanção, fosse o que fosse….e a resposta nunca chegou!

Convencido, enfim, de que cometera um erro crasso, tão facilmente confundível com a cobardia, que nem desse amigo certo merecia uma palavra boa, um gesto de defesa, um apelo, tornou-se juiz da própria causa. E foi inexorável consigo mesmo, o ingénuo, o romântico, o impoluto herói!

A miserável cabala dessa tropa do sul de África tinha sortido os seus efeitos. As ordens recebidas lá de baixo, da União, foram cumpridas à risca. Porque veio a saber-se depois, que nenhuma das notas, dos telegramas, dos angustiosos apelos do Tenente Humberto de Ataíde ao seu comandante e amigo José Cabral, tinham chegado ao seu destino. Os miseráveis, por cálculo ou por desdém, tinham-nos cassado todos, interceptando todos, retido todos entre as suas papeladas.

Foi apenas isto, esta pequenina torpeza, que ele ignorou sempre, de que ele nem suspeitou nunca, o que levou a condenar-se e a justiçar-se por suas mãos.

Só quem nunca se viu ainda em África, sozinho consigo mesmo, nesse lôbrego e hostil silêncio do mato africano poderá acusar esse bravo rapaz de fraqueza de ânimo nesse minuto supremo. Demais ele andava adoentado, convalescente ainda de uma crise de febres. E não há nada mais depressivo que um longo estágio de vida sedentária em África.

Num relatório do Sargento que até ao fim lealíssimo, o acompanhou sempre, mas com quem ele, decerto, por disciplina e orgulho nunca entraria em confidências, disse:
- «No dia 4 de Agosto, desesperado de obter qualquer resposta do Sr. Major Cabral, o Sr. Tenente Ataíde fechou-se no seu quarto a escrever cartas e a rasgar papéis. Às três horas da tarde, tendo perguntado ainda se tinha vindo algum correio para ele, como nada houvesse de facto, ele tornou a fechar-se no quarto e pouco depois desfechou a sua pistola no coração”. As duas cartas que deixou, eram uma para a sua mãe e a outra para o Major Cabral

Perante o exemplo dessa vida e a tremenda lição dessa morte, não será lícito afirmar-se que o precoce fim do Tenente Humberto de Ataíde foi alguma coisa mais que o simples óbito dum oficial em terras de África? Não teria morrido com ele o velho brio português? E não nos assiste ainda o direito de fazer outra pergunta?
- O que haveria a esperar deste honrado e heróico moço? De que prodígios não seria ele capaz, para maior glória do seu tempo e da sua Pátria?
                                                         Carlos Selvagem
                                                     4 de Agosto de 1928



Uma sentinela (colecção particular)



Nota:
Sem comentários, porque os não precisa, transcrevo uma carta, a última. Esta devia andar decorada por todos aqueles que em Portugal vestindo uma Farda do Exército, têm ainda da Honra Militar uma noção ambígua e difusa

« Mùatúa, 4 de Agosto de 1918

Meu Exmo. Amigo

Esta carta é-lhe devida por duas razões: porque V. Ex.ª faz favor 

de me dispensar a sua amizade e porque lhe devo pedir perdão de 

não ter sabido corresponder até ao fim à confiança que em mim 

depositou.


Pratiquei em erro. Erro tanto mais grave quanto ele pode ter

consequências gravíssimas sob o aspecto da nossa soberania aqui 

–mais aqui declaro a V. Ex.ª – no momento em que o pratiquei 

estava absolutamente convencido de que tal devia fazer. Sou uma 

vítima dos acontecimentos e não um cobarde vulgar. Nunca menti 

na minha vida em coisas que a minha dignidade pessoal estivesse

 envolvida. Tudo quanto fiz, fi-lo de acordo com a minha

 consciência e não precisava, pois, de para me justificar, recorrer 

a  embustes e a falsidades. Nesta ocasião suprema, muito menos

 vou faltar à verdade, que todo o homem de honra deve colocar 

acima de tudo. Declaro a V. Exa. Que na ocasião em que fiz o 

desgraçado acto, que hoje me leva ao aniquilamento, eu, e julgo

 que comigo, quantos me acompanhavam, estávamos

 absolutamente convencidos de que se praticava a única solução

 que as circunstâncias reclamavam. Fui infeliz, mas não fui 

cobarde. Durante a minha vida de oficial, várias vezes afrontei a 

morte, em casos bem mais terríveis do que em Nametil e nunca

 dela tive medo. Hoje mesmo que findo esta, vou meter na cabeça 

o ponto final da minha vida. Julgo que dou uma prova mais de

que se saí de Nametil o não fiz por receio de morrer. Tendo

obrigação de morrer no meu posto, eu não me julguei com o

direito de sacrificar impiedosamente e ingloriamente os que me

 acompanhavam e daí a razão do meu acto.

Um inquérito bem ordenado, feito com amor e zelo mostrará, que

 sou uma vítima da confusão desgraçada em que os ingleses nos

 colocaram.

Se em minha consciência, fiz o que devia fazer, nem por isso deixo

 de compreender que me enganei e pratiquei uma grave falta.

 Faltas desta natureza – só uma coisa as limpa e redime. O sangue 

– E por isso me mato.

Resta-me pedir, que aos que comigo me acompanhavam nada seja

 feito. Assumo a completa e inteira responsabilidade de tudo.

 Para vítimas basto eu!

Adeus, meu caro amigo, abracem em meu nome, quantos amigos

 temos – o Bessa, o João de Meneses, o Sarmento Pimentel, o 

MacBride, o Cunha Leal e tantos outros cujos nomes me ocorrem 

ao coração, a este coração a que eu desejava estreitar e que 

dentro em pouco estará frio e inerte. Mais uma vez perdão e o 

último abraço do seu companheiro de ideais.
                                                                                      
                                                                    Humberto Ataíde



Coordenação de Textos e imagens: marr

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

NAULILA - ANGOLA

18 DE DEZEMBRO DE 1914
NAULILA, SUL DE ANGOLA

Formatura no Lubango, antes de partirem ao encontro dos alemães
Poder-se-á resumir assim o combate de Naulila conforme o testemunho do Tenente Ernesto Moreira dos Santos:

(...) Ouviu-se um nervoso toque de alarme. Logo de seguida soube-se que uma força dos nossos postos avançados tinham retirado do flanco esquerdo. Simultâneamente irrompe um nutrido fogo de artilharia no nossos flanco esquerdo, surpreendendo-nos. A seguir, rajadas de metralhadora cuspiam pelo espaço as suas mortíferas balas. Começámos a ver rastejando a infantaria inimiga à qual o sol batendo-nos me cheio nos olhos, não deixa fazer a pontaria; mal se divisam vultos indistintos, aparecendo e desaparecendo nos claros das ondulações do terreno. O tiroteio aumentava num crescer diabólico. O comandante de pelotão dá ordens a uma meia dúzia de homens do flanco esquerdo para dirigirem o seu fogo naquela direcção. O comandante de companhia, Capitão Homem Ribeiro, de binóculo em punho, diligente, de um lado para o outro, procura regular o tiro, animando, encorajando, valente e intemerato...foi o primeiro a cair morto (...)



Dispositivo das forças pelas 12 horas de 17 de Dezembro
 (...) Os artilheiros alemães com uma peça que tinham feito avançar, mascarada com uma viatura da Cruz Vermelha, contra todos os regulamentos de Haia, flagela-nos de surpresa, com tiros de lanterneta, enfiando-nos a trincheira. Ao 6.º tiro da artilharia alemã, rompe o incêndio nas palhotas do Posto, que serviam de paiol a milhares de cartuchos para todas as bocas de fogo. Os cunhetes das munições de infantaria e os cofres das munições da artilharia, com o calor do incêndio, rebentavam e as suas balas caíam em cima dos defensores da trincheira. Era um horror! (...)

(...) Nós, no Posto, éramos infelizes em tudo e desafortunados sob vários aspectos. Perto das oito horas, depois de um terrível tiroteio de fogo vivo, algumas armas disparavam-se por si, devido ao aquecimento. O tiro partia imediatamente logo que se fechava a culatra. Houve bastantes ferimentos nos dedos, por queimaduras.(...)





Dragões de Angola

(...)Às oito horas e quinze minutos, ouve-se na retaguarda do inimigo, que se encontra a escassos metros de nós, um alarido surdo, seguindo-se um enfraquecimento do fogo das metralhadoras inimigas. Um punhado dos nossos Dragões* com cavalos chagados e esqueléticos, conseguiu dar uma carga, num terreno coberto de espinheiros, cujos bicos, são chamados de unhas de gato, lançando o pânico nas fileiras adversas, conseguindo baixar nas guarnições de duas peças de artilharia (...)









A marcha das forças alemãs para o combate, em 17/18 de Dezembro.
Movimento e acção do Esquadrão de Dragões
 (...) Foi tão eficaz esta carga, por meia dúzia de homens, destacando-se o Tenente Aragão, o Alferes Serrano entre outros, feita à retaguarda do flanco da posição da artilharia inimiga, que os surpreendeu, rolando alguns desses artilheiros pelo chão, destroçados (...)


A chegado ao Lubango do resto do 1.º Esquadrão de Dragões que tão cora-
josamente atacou os alemães em 18 de Dezembro de 1914. à frente o
Comandante Tenente Artur Matias


(...) Desta carga e desde o local da artilharia inimiga até ao nossos Postos, caíram quase todos os cavaleiros e cavalos, mortos ou feridos, pelas metralhadoras alemãs, voltadas em massa contra eles (...) Só quem presenciou pode avaliar tamanha ousadia e ânsia em salvar a Infantaria e em honrar as nobres tradições da Cavalaria (...)  Tratava-se do 1.º Esquadrão de Dragões de Angola, comandados pelo valoroso Tenente Aragão.



metralhadoras e a 10ª Companhia de Landins na face direita
 Regressando ao testemunho do Tenente Ernesto Moreira dos Santos: (...) Aquando da carga dos Dragões, recebeu-se uma ordem rápida, nervosa, quase uma sentença de morte: o Comandante do pelotão, Tenente Marques, vendo as nossas munições a dizimarem os seus soldados devido ao incêndio do paiol, manda armar baioneta, ordem que é transmitida de homem a homem e a um dado sinal, saltou-se a trincheira e num marche, marche inigualável, quase inacreditável, aos gritos de: "avança...avança..."  como naquele tempo se faziam as cargas, se avançou numa corrida fulgurante, contra o inimigo, quase contra a morte, uns 50 a 60 metros, para nos determos próximo de um imbondeiro, derrubados pela artilharia alemã (...)

Soldados alemães

(...) Caíram muitos, é certo, mas naquele arranco até o inimigo ficou surpreso. Tendo passado para a história a frase do Comandante do meu pelotão: " Antes morrer pelas balas do inimigo, do que pelas nossas!"  Tratava-se do pelotão do Tenente Marques da 12.ª Companhia de Infantaria N.º 14.




(...) Foi pena a falta de reforços naquele momento. Bastava mais um pelotão para se prosseguir naquele avanço e nenhum alemão voltaria à Damara (...)






(...) Só às nove horas menos um quarto os alemães ocuparam o Posto. O comandante de pelotão ainda combatia, agarrado a uma arma. Foi o último a entregá-la, depois do assalto da infantaria alemã, numa carga impetuosa e cerrada. Eu jazia no chão, com a perna direita ferida por um estilhaço de granada, o ante-braço esquerdo furado por uma baioneta, o parietal direito ferido e o maxilar inferior partido (...)




Grupo de oficiais que combateram em Naulila. Sentados da direita para a esquerda:
Capitães Reis e Patacho, Tenente Sabo e Alferes Menezes. De pé, também da di-
reita para a esquerda, Tenente Stockler, Alferes  Veterinário Abade, Tenente
Bettencourt e Tenente Matias
(...) Tinha sido cumprida a nossa missão: RESISTIR ATÉ AO SACRIFÍCIO! Para que as forças dos Morros de Caluéque, pudessem retirar para o Norte (...)

(...) Foi assim que se bateram em Naulila os soldados portugueses em baptismo de fogo, o primeiro combate de que reza a história de Portugal que se travou contra soldados alemães (...) 


Grupo de Sargentos que estiveram em Naulila
(...) Mesmo assim, eu pergunto: Venceram os alemães em Naulila? Não! Venceram os portugueses? Não! Foi um combate indeciso... mas para os portugueses, foi mais honroso. Os alemães tinham o comandamento do terreno; o quíntuplo do efectivo; armamento moderníssimo (1912). Nós o de 1904! (...)



MORTOS E FERIDOS EM NAULILA

Mortos
3 oficiais, 54 praças europeias e 12 indígenas

Feridos
5 oficiais, 61 praças europeias e 10 indígenas

Prisioneiros
3 oficiais e 34 praças europeias

Enforcados
Todos os soldados indígenas LANDINS, que os alemães aprisionaram e depois executaram

Ernesto Moreira dos Santos
           "Cobiça de Angola"
























Homenagem prestada ao heróico Comandante do 1.º Esquadrão dos Dragões de Angola Tenente Francisco Xavier da Cunha Aragão  que se destacou na carga de Naulila.


* Os uniformes, armamento e equipamento das tropas ultramarinas e das indígenas será um assunto a  tratar oportunamente.

Coorden. do texto e ilustrações: marr

terça-feira, 5 de abril de 2011

MOÇAMBIQUE E "A EPOPEIA MALDITA"

AFIRMAÇÕES
 DO
GENERAL GOMES DA COSTA
ACERCA DO LIVRO
"EPOPEIA MALDITA"
ESCRITA POR ANTÓNIO DA CÉRTIMA

(...)  Dizia Stendhal, que a arte de mentir se aperfeiçoara muito no seu tempo; que diria ele se hoje aparecesse nesta nossa boa terra de Portugal? Porque, mentir, passou a ser uma necessidade entre nós, desde que se criaram as clientelas para apoio de um chefe que lhes  dê de comer. A mentira adopta, agora, formas vagas, genéricas, vesgas, imprecisas, difíceis de incriminar e, sobretudo, de refutar (...)


General Gomes da Costa em França
Colecção particular

(...) Todos fingem pretender que só se diga a verdade, mas quando alguém de coragem a revela, todos lhe saltam em cima, injuriando-o, abafando-o, repelindo-o. Numa Nação de iletrados, onde a opinião pública é representada por dois ou três jornais politicos, a Verdade anda escondida pelos cantos, e só muito tarde se resolve aparecer (...)

(...) Quando algum fracasso ocorre, não hesitam em atirar com as culpas para cima dos outros; e é este o caso da guerra, e particularmente da guerra de África, em que se procuram atribuir culpas do tremendo desastre aos pobres dos soldados e aos graduados inferiores. Cheia de verdade é "A EPOPEIA MALDITA", e por isso mesmo tem esse livro raro valor. A miséria que descreve, escritor algum seria capaz de as inventar (...)


(...) O que se passa em África foi o mesmo que se passou em França, apenas com a diferença de nesta se não sentirem privações - graças à administração britânica; porque se estivessemos entregues a nós mesmos, a catástrofe teria sido horrorosa (...)

Atravessar o Rovuma
Colecção particular
(...) Em África, vemos os chefes e a sua claque, na base, comendo, bebendo, passeando, gozando, estendidos nas preguiceiras de verga, abanados pelos moleques, tomando limonadas ou "whisky and soda" bem gelados; o resto, a canalha, os párias - rotos e sujos, debaixo dum sol de inferno, sem pão, sem água, sem medicamentos, atolados nos lodos do Rovuma, trocando tiros com o inimigo pela honra de uma Pátria cujos destinos estavam nas mãos de inconscientes, ou ignorantes, ou perversos (...)


(...) Mas no fim, ao terminar a guerra, aparecem, numa evidência balofa, os videirinhos, assaltando os lugares de rendimento, reforçando as clientelas dos deuses de ocasião, cobrindo-se uns aos outros de condecorações e afastando os que poderiam incomodá-los, caluniá-los,e, entre estes, até os pobres mutilados, que eles só aproveitam para os explorar em exibições públicas, colocando-os à sua frente (...)


(...) O livro "A EPOPEIA MALDITA" é a reacção salutar contra a mentira de África, é um livro de coragem absoluta, é um livro de Verdade! Porque, os que, como eu, viram em Mocímboa da Praia, ao terminar a guerra, as montanhas de pneus, os centos de automóveis, os rios de águas minerais e de vinho, as máquinas de toda a espécie, algumas das quais nem tinham quem delas se soubessem servir; os refrigeradores, as toneladas de víveres que, estragados pelo tempo, tiveram de ser atirados ao mar, indo envenenar o peixe da baía; as cruzes de pau dos cemitérios, abandonados, dos nossos soldados; quem viu tudo isto, é que pode compreender bem o que é "A EPOPEIA MALDITA", e revoltar-se contra a inépcia, incapacidade, incúria, desleixo, estupidez e desumanidade dos que, com os meios de acção mais poderosos que nenhuma outra expedição portuguesa teve em África, deixaram devastar e destroçar à fome e à sede, esses pobres soldados de Portugal! (...)

Artilharia de montanha
Colecção particular

(...) Mentira! Tudo Mentira! Ninguém quer a Verdade, porque  a Verdade, como a luz, ofusca essas aves sinistras que se governam a si, fingindo governar a Nação. Políticos da força dos básicos de Mocimboa da Praia, comendo e bebendo em repetidos banquetes, sem que lhes perturbe as digestões a lembrança dos que a esta hora dormem nos cemitérios de França e de África, vítimas da sua incapacidade e da eterna falta de preparação do exército (...)


(...) Mentira só possível num País onde o Povo, bestializado por uma secular vida de submissão, consente que o crucifiquem sem soltar, sequer um grito. É esta a lição que se tira da leitura deste livro soberbo de Verdade, escrito por quem viu e sentiu bem a guerra em todo o seu horror!(...)


Gomes da Costa
      General


Coorden. do texto: marr


segunda-feira, 4 de abril de 2011

MOÇAMBIQUE

TESTEMUNHOS

MOÇAMBIQUE
Passando o Rovuma
Colecção particular
8 DE NOVEMBRO DE 1916
DE NEVALA PARA LULINDI


(...) Falava-se com insistência nos famosos reforços que a Metrópole enviaria, mas os soldados sentiam-se cheios de desenganos, abatidos por tantas e tão desoladas amarguras, deixando-se abater, andrajosos, ampaludados, rotos de espírito e vestuário, acreditavam, com uma serenidade búdica de dever cumprido, que já não tinham alma para mais! (...)



(...) Ao Quartel-general competia estar em Palma, a cento e tantos quilómetros, onde nem um berro de canhão chegava. Em compensação trabalham de gabinete como mouros, expedindo ordens:
- Avance!
- Mas não temos víveres...
- Avance!
- Mas não temos água...
- Avance!
 E cá vamos seguindo junto ao rio, como uma lesma (...)


Sobre o Rovuma
Colecção particular

(...) E numa tarde de sonho Deus chegou! Era o Major de Artilharia, Leopoldo da Silva, visionário incorrigível, na sua luminosa coragem, na ode magnífica da sua insensatez marcial(...)



Major Leopoldo da Silva
Colecção particular



Marcha para Lulindi
Colecção particular

(...) Vinha ébrio de sonho. Que iria suceder? O Major com o seu aspecto viril e inquieto, com o seu séquito de artilheiros todos rútilos e altivos nas fardas vistosas, metia medo e deslumbrava! Leopoldo da Silva trazia, de Palma, as suas credenciais de novo chefe da COLUNA DE MASASSI, arrebanhou homens, exaltou esperanças e redigiu a "Ordem de Marcha" e, no dia imediato a Coluna, meia estremunhada, meio louca, abandona a esplanada de Nevala marchando para Lulindi (...)



(...) À frente, Leopoldo da Silva e a sua hoste de artilheiros, cavalgando com firmeza, seguindo-o, um grupo de militares sem vontade, sem fé, projectando na fria luz da madrugada a sua mancha bizarra de miséria: clarões de carne ao léu, farrapos de vestuários, alguns meios nus, outros em mangas de camisa (...)


Colecção particular

(...) Com o sol ardente, às portas de Lulindi a artilharia toma posições, regula o tiro e abre fogo nutrido. As "sharpnell" sibilam em chicotadas de aço, batendo o ar mas sem resposta do inimigo (...)
A artilharia
Colecção particular


A emboscada alemã
Colecção particular

(...) Retoma-se a marcha e, com a coluna entupida na apertada barragem do caminho, num belo alvo, a emboscada alemã replica então com ferocidade varando a cavalaria de exploração numa fuzilaria brava (...)

(...) Há um embaraço e pânico, tumultos, esboçam-se fugas. A estreita estrada regurgita de trens municiadores e carros de víveres, dificultando as posições. Mas a infantaria negra estende e abre em duas secções; a primeira comandada pelo valente  Tenente Saraiva, da 22.ª Indígena, ocupa o flanco esquerdo; a segunda, postada no flanco direito às ordens de outro bravo militar, o Sargento Matos do 28 (...)


Colecção particular

(...) O fogo rompe, primeiro fraquejante, depois intrépido e quente. Mas o inimigo encrespa-se com ousadia, assume superioridade, varre as frentes com rajadas continuas (...)  Entretanto para desgraça das armas portuguesas, a nossa artilharia muito perto de nós, não podia fazer fogo, e as metralhadoras muito a custo eram arrastadas para a linha de combate. A guarnição dessas armas era deficientíssima: as peças tinham um clarim, um 2.º cabo, dois sargentos e um oficial; as metralhadoras apenas nove soldados de infantaria, apanhados à unha, conhecendo esta arma só de longe (...)

Artilharia alemã
Colecção particular

(...) E já nas metralhadoras faltam as munições; já os carregadores fogem apavorados com esta luta de tigres enfurecidos, e é então que o Major Leopoldo da Silva vendo, num relâmpago, a queda inevitável do seu vasto sonho de águia napoleónica, corre, numa humildade de soldado que não trepida, e acode com pólvora, com um cunhete inteiro, à metralhadora prestes a calar-se...mas duas balas sibilam com alegria macabra, criminosas, ímpias, e o Deus tomba, ferido de morte! (...)


As metralhadoras
Colecção particular

(...) A raiva da dor e a previsão duma derrota morde como áspides a coragem destes leões, perturbando o campo. E um incêndio de loucura varre as fileiras, cresta as almas (...) um sargento do 28, neste desvairamento da refrega, prende o Alferes Craveiro Lopes tomando-o por "boche", o Tenente Germeniano Saraiva, varejado pelas nossas metralhadoras, intima-as a calarem-se ou a mudarem de direcção, sob o perigo de mandar os seus homens fazer fogo contra elas, ninguém se entende (...)

Capitão Pedro Curado
Colecção particular

(...) Entretanto, levado para a retaguarda com o Ajudante - o Alferes Monteiro Leite, também ferido quando o socorria - o Major Leopoldo da Silva, rouco, esvaído de sangue, clamava que "retirassem" e salvassem os seus soldados...- grande ainda, Senhor, no seu imenso coração vencido! (...) os ânimos dobram-se, há um fraquejo nos graduados. Seria melhor retirar...alguém alvitra com timidez (...) ergue-se então o maior Homem de toda esta Epopeia decadente: é o Capitão Pedro Curado! Pistola no cinturão, cavalo-marinho e cachimbo à "rifle", dissimulada despretensiosamente sob o chapeirão bóer (...) e sem perder um momento é ele que assume o comando. Então de novo o campo se electriza. À falta de água, esgotadas já as últimas garrafas de Cúria e Vidago, urinar-se à pressa no "refrigerador" das metralhadoras. Depois, sempre de pé, arrastando todo o arraial, o chefe precipita a sua companhia negra numa avalanche sobre o "boche", a qual, valente como nunca, ébria da pólvora e lisonjeada pela grandeza do comandante, rompe em pavorosa gritaria e faz uma "carga" ululante e épica. Foi o fim. O inimigo fraquejou, quebrou e sob o último tiro das nossas granadas, calou-se de todo, retirando em desordem, desmantelado, sem orgulho e sem forças, para a baixa charneca de Lulindi. Anoitecia (...)

Posto de observação
Colecção particular


(...) Com a retirada de Leopoldo da Silva o comando do combate pertencia ao Capitão Baptista, das metralhadoras como, oficial mais antigo. Porém alegando não sei que "pessoalíssimas razões" este, oficial, recusou-se terminantemente a esta missão. E como comentário  é conhecido este grito galhardo do Capitão Curado, que berrou para um emissário, no fim do combate: "DIGA LÁ AO SR. CAPITÃO BAPTISTA QUE VENHA TOMAR O COMANDO DISTO, QUE JÁ NÃO HÁ TIROS" (...)


(...) Louco? Visionário? Leopoldo da Silva ficou no meu coração, que meu pai ensinou a ser grande, como símbolo do esforço heróico, castiço, da velha cavalaria Lusa - por isso merecendo o meu amor e a minha admiração, poucas vezes dispensada aos homens. Que ele fosse um louco, sim! Mas todos nós preferiríamos morrer heroicamente com este Louco, numa luta briosa e enérgica, com sangue e sol, a acabarmos vergonhosamente como o aristocrático senhor de Palma, apodrecendo nas lamas da Base."

(...) Glória ao Herói de Quivambo! (...)

António da Cértima  in: "Epopeia Maldita"

Coorden. do texto: marr

sexta-feira, 11 de março de 2011

ANGOLA

Moçâmedes em 1914
MARCHA NO SUL JUNTO AO LITORAL
DEZEMBRO DE 1914
(um testemunho)

(...) O caminho era unicamente um areal movediço, em que os pés se enterravam, e em que se dava uma passada para a frente e meia para trás de cada vez (...)

(...) De longe a longe alguma raquítica vegetação de plantas gordas rasteiras e salgadas, de um verde-escuro sujo, e com laivos terrosos (...)


As Welwitschia - Mirabilis



(...) Se parávamos, as areias cobriam-nas aos pés até aos tornozelos em menos de um minuto, vinham-nos açoitar a cara e as orelhas como pequenas balas; entrava-nos pelos ouvidos e pelo nariz. Que penosa marcha, encetada às 4 da manhã! Que terrível situação! (...)




(...) A fila indiana, aproximando-se o mais possível da água, era ainda assim chicoteada pela areia seca e pelas respingas da água salgada das ondas, que cada vez vinham maiores quebrar-se no areal. Com o corpo deitado para trás, para resistir ao vento sem cair, a areia mesmo molhada vinha chicotear-nos a cara, as mãos, o pescoço, de tal forma que estavam quase em sangue; e assim continuamos andando sem poder parar, pois a paragem seria a morte por asfixia enterrados no areal, que seguia sempre....sempre...., levantando-se nuvens de areia que iam formar mais a norte novas dunas, que se iam sempre movendo. A andar comemos bolacha e bebemos vinho, engolindo tudo misturado com areia (...).

Texto de: Roma Machado, In: "Recordações de África".